Adão e Eva tinham uma vida perfeita em Éden... e assim nasceu o conceito de destino turístico. Um jardim é um sítio sem centralidade, é a vida em presente contínuo, fruta à mão, não há horas para almoçar. Não é preciso roupa, o pecado não existe, não temos de ir a lado nenhum, basta ir andando. O Jardim de Éden podia não ser uma ilha, mas um continente não era de certeza. Um jardim é delimitado, tem fronteira, a partir da qual a vida é outra coisa. Um continente é o plano para a viagem, é a oscilação entre a centralidade e a periferia, é a consciência que não há uma fronteira entre nós e o outro, mas um caminho. Muitas são as ilhas dos Homens: Ulisses teve de amarrar os seus marinheiros aos mastros para que eles não sucumbissem aos cantos das sereias da Ilha de Capri. Na ilha dos Lotófagos, comeu flores narcóticas e quase se esqueceu de partir (suspeito que isso também me aconteceu, mas não me lembro bem). As ilhas são os sítios para onde as pessoas vão. A ilha é o cenário para a auto-descoberta como na série 'Lost', da fantasia como na 'Tempestade' do Shakespeare, do erótico como a Ilha de Gauguin. No James Bond a ilha é onde está o centro da maldade. E para quem nasceu numa ilha? Como lidar com este imaginário colectivo do não-lugar, do paraíso ou do inferno puro? Uma ilha não é perto nem é longe, é outro planeta. Hemingway popularizou aquela frase do poeta John Donne, 'Nenhum Homem é uma Ilha'. Donne não era ilhéu, era inglês, senão não escrevia estas coisas. Nenhum Homem é uma ilha (...)!
Filipe Ferraz, Realizador