Há poucos dias estive com um pequeno grupo de crianças entre os 10 e os 12 anos a pensar sobre estas coisas das "drogas". A interacção começou por ser muito fácil, pois as crianças estão muito disponíveis para comunicar quando se sentem ouvidas e respeitadas nas suas opiniões. Gostam de falar e de participar na dinâmica da comunicação. Quando queremos abordar com crianças e jovens, assuntos, que a nós adultos nos parecem delicados, devemos fazê-lo devagarinho, conquistando a sua atenção. Quem leu o livro do"Principezinho" entenderá claramente o que pretendo dizer. A palavra mais adequada chama-se cativar. Importa ainda estarmos seguros e à vontade com o tema que pretendemos explorar, sem preconceitos, aceitando numa primeira fase todas as ideias e opiniões. Só então teremos o clima necessário para esclarecer com segurança o certo do errado e o porquê de uma certa confusão de conceitos, sem que isso pareça que os consideramos ignorantes, algo que de facto não são, sem qualquer margem de dúvida. Então para além de ter entendido o quanto estas crianças, pequena amostra de um universo, que acredito que se possa generalizar, sabem sobre alguns conceitos básicos das substâncias psicoactivas, legais e ilegais, e as distinguem muitas vezes com um conhecimento claro, percebi também como algumas famílias estão a alterar hábitos de vida em função do bem-estar destas crianças. Alguns dos exemplos sobre os seus familiares próximos e as estratégias que encontraram para abandonar hábitos de dependência com substâncias, entre outras, o álcool e o tabaco, deixou claro o orgulho e a rede afectiva de decisões: "o meu pai decidiu deixar de fumar quando eu comecei a crescer", "o meu avô também deixou de fumar de um dia para o outro quando o meu tio adoeceu", "o meu pai esteve internado mas agora já não bebe". Uns conseguiam sozinhos, outros precisaram de apoio e acompanhamento especializado, mas estas crianças percebiam o quanto era difícil abandonar "o vicio", mas como era possível, apesar de às vezes não ter sido logo à primeira. Não vi tristeza nem desânimo, mas sim orgulho e esperança, e a ideia clara de que as drogas existem, mas que o poder do amor pode vencê-las se nos mantivermos unidos e confiantes. Tinham consciência das dificuldades mas também do sucesso e do seu papel no mesmo, apenas por existirem e serem importantes nas suas famílias. Este foi para mim um momento de grande satisfação porque vi, ouvi e senti, como tanto do que se diz por aí não é de todo verdade. O trabalho que tantos técnicos têm vindo a desenvolver em áreas como a prevenção dos comportamentos de risco, da intervenção familiar, dos grupos de auto ajuda para alcoólicos, entre tantos outros, tem de facto resultados visíveis e só não vê quem quiser continuar a usar lentes riscadas e baças que não permitem olhar com clareza o que está à frente dos nossos olhos. Não existem sociedades perfeitas, mas muitos de nós acreditam na mudança e é muito gratificante quando nos sentimos corresponsáveis na rede das interacções. Foi muito bom estar com estas crianças e sentir como alguns de nós estavam lá com elas, dando o nosso pequeno contributo no seu grande mundo. Não posso terminar sem dizer o quanto os professores têm um papel fundamental nesta rede e como tantos se esforçam por dar o seu melhor, apesar dos condicionalismos. A todos os que não desistem de acreditar na rede de interacção afectiva, a certeza de que o futuro está ainda nas nossas mãos.
Manuela Parente, Psicóloga