Artigo 22º da Declaração Universal dos Direitos Humanos «Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.» Ao fim de quatro anos, a RTP-Madeira deu finalmente a palavra ao chefe do governo que, imagine-se, se confessou muito agradecido pela oportunidade que lhe foi concedida esta semana. Podia era ter aproveitado para em vez de assumir um pretenso papel de grande estadista que se ocupa durante uma hora a dar lições de história, de economia, da Europa, do mundo - podia ter aproveitado para falar de cá. Do que aqui se passa. Do que aqui falta. Dos erros das opções estratégicas. Do total desprezo pelo planeamento, sem aceitar que a sua falta potencia os riscos em situações de catástrofe. De um modelo de desenvolvimento a precisar de renovação completa. Da miséria e das desigualdades sociais. De uma dívida regional de 6 milhões de euros. Dos mais de 16 000 desempregados. Dos 70 000 pobres, que correspondem a um terço da população da Região. De um hospital cancelado. De como tudo isto se resolve. Podia ter falado dos rios de dinheiro que se esbanjam, como se fossemos uma região rica. Dos parques industriais que pura e simplesmente não funcionam. Dos estádios de futebol à custa de milhões de euros do dinheiro dos contribuintes. De um consumo em iluminação urbana criminosa, dada a dependência da Região em matéria energética. Dos 70 milhões para uma marina condenada. Das obras marítimas que por falta de protecção são destruídas pelo mar, que não se recuperam e que se vão degradando até ao fim. E já agora dos reais custos desta pretendida intervenção na baía do Funchal; porque afirmar que só se vão gastar 40 milhões de euros é tentar fazer de todos nós parvos; até porque aquela obra está intimamente ligada à pretendida confluência das duas ribeiras e à destruição da praça da autonomia, para em seu lugar construir outra. Era realmente uma boa oportunidade para ter falado de tudo isto. Mas não. Sobre isto ouviu-se silêncio. Ou pior, ouviu-se qualquer coisa como Não estou aqui para falar do beco! Nem do beco, nem da avenida, de sua excelência ouviu-se nada. Também tinha sido uma excelente oportunidade para confessar que, em matéria de conclusões do 'Estudo de avaliação do risco de aluviões na ilha da Madeira', verdadeiramente não há nada de novo; nada que não tenha já sido dito por tanta gente ao longo dos anos. Sempre arrogantemente ignorado, sempre a não aceitar ouvir quem quer que colocasse uma simples pergunta. Ou falado dos insultos que são a sua linguagem. Dos recuos atabalhoados quando as coisas apertam. Tal como na vaia dos Barreiros, que ainda faz dores de cabeça ao entrevistado, a desculpa do 'grite quem gritar' é verdadeiramente de gritos: o chefe do governo não assume que teve que engolir cerca de duas mil pessoas em cima do aterro na baía do Funchal e, por isso, arranja uma desculpa esfarrapada de que era para alguns, não era para todos. O problema é que em cima daquelas terras apareceu uma quantidade de energúmenos, parvalhões, analfabetos, ignorantes e idiotas que ele não esperava. Gente que não teve medo de mostrar o que não queria. Gente que não se intimidou em dizer que gosta da sua cidade e que quer o melhor para ela. Gente que integra uma sociedade que vai acordando e participando, num processo que se espera sempre crescente. E já que não fez nada disso, bem pode aproveitar a oportunidade para passar mais quatro anos sem voltar à RTP-M. A não ser para ensaiar ares de estadista, afagar o ego, afirmar-se o único importante, não se vê outra utilidade em gastar tempo de antena. Não há nada de novo. Tudo já visto e gasto. Sem ideias, sem perspectivas. Como de resto, toda a governação, numa tremenda sensação de fim de regime, numa convulsão interna que já é pública, numa luta de protagonismos e de figuras. Num apodrecimento. Começa a desenhar-se, no horizonte, uma nova oportunidade. Cabe-nos aproveitá-la, construi-la e utilizá-la para um futuro melhor.

Violante Saramago Matos