Há dias em que, por mais voltas que se dê, não se consegue fugir aos lugares comuns. Estou num desses e não me sai da cabeça que “tudo é relativo”. Bem sei a giganteza deste ‘cliché’, mas a banalidade das coisas não faz com que sejam menos importantes. Aliás de tão corriqueiras, caem no esquecimento da rotina diária.
E isto tudo porque fiquei sem telemóvel e senti-me perdida. Um furto dos muitos que há nas grandes cidades. Sem violência, sem estrondo e quase sem importância. Sobretudo porque ninguém ganhou. Nem o meliante que se encantou do aparelho, mas que pouco pôde fazer com ele. E eu menos ainda, que perdi mais do que o valor do telemóvel. Os contactos, as fotografias e vídeos do filho, as mensagens de amor e guerra, a vida de alguns meses.
Consumiu-me o dia todo. Entre a revolta do bem perdido, a autocomiseração e autoflagelação pela idiotice recorrente de não ter feito os backups, as horas correram como correm sempre. Velozes. E eu a achar que era uma pessoa muito infeliz e com uma sorte madrasta. Reconheço o dramatismo excessivo.
O tempo não espera e a vida não pára, nem se compadece destes pequenos problemas quotidianos. A realidade sobrepõe-se. Para o bem e para o mal. “O meu irmão está limpinho”, confidenciou-me ela satisfeita. “Só tem de fazer análises daqui a seis meses”, relatou, numa alegria que não se descreve. Assim como quem quer dizer: “Estamos autorizados a meio ano de descanso e sem pensar em cancro”.
“Que boa notícia”, regozijei-me.
Outro contacto, outra estória. “Ela está bem, mas este ano ainda não recebeu”, contou-me ele a propósito da mulher, que toda a vida trabalhou na hotelaria. “Isto está muito mau”. “Olha será que podes ajudar o Y, que está sem dinheiro para os medicamentos?”, perguntou-me. “Estamos a ver se lhe damos a mão, entre todos não custa nada”.
E face a isto não consigo deixar de pensar na relatividade das coisas. Penso na mãe que ficou anos a fio sem saber da filha e a reencontrou no Facebook, na senhora tão só na vida como na morte... Enfim...
Dei-lhe um abraço apertado e pensei que melhor dos que as memórias, que nos remetem para o passado, é o futuro. As fotos e vídeos que ainda não foram feitos. Se todos os dias milhares recomeçam sem suporte, sem alicerces, sem backup e com dramas verdadeiros, porque perdemos tempo e energia no acessório?
Para finalizar recebi um mail. “Não te conseguir contactar, onde estás? É uma menina!”. Finalmente sorri, de corpo e alma. O futuro está aqui. E vivê-lo no presente de hoje é mesmo o mais importante. E eu sei que é óbvio, mas às vezes também me esqueço.