Maribel Agrela Não sou especialmente religiosa, mas sempre achei interessante a passagem na Bíblia em que Jesus diz: "Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra" (Mateus 5, 39), e uma outra passagem onde Jesus ao ser agredido por um guarda do templo questiona: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?» (João 18, 23). Esta capacidade perdoar - de perdoarmo-nos e perdoarmos aos outros - não é fácil. Lá diz o ditado popular "está perdoado, mas não está esquecido", porque a memória tende a reavivar a mágoa e a ofensa cometida e assim perdemos muitas vezes grande parte do nosso tempo, e daquilo que poderia ser uma vida bonita, agarrados aos nossos rancores, aos nossos "espinhos", contra este ou aquele, contra a sociedade em geral, contra os nossos governantes, contra tudo e todos, mas ao fim e ao cabo, apenas e só contra nós mesmos. E enquanto na nossa mesquinhez procuramos a vingança apontando o dedo aos defeitos do vizinho, enquanto buscamos incessantemente "os potenciais podres" do passado dos outros para hastearmos como bandeira de vitória (Vitória de que guerra?!), esquecemo-nos do essencial. E como é redutora esta vida assim (mal) vivida! Como seria tão mais agradável se despendêssemos toda essa energia para aperfeiçoarmo-nos, apreciarmos a beleza da nossa família, dos nossos amigos e da natureza, desta passagem tão breve por esta vida. De que nos vale ser (supostamente) inteligente, dominar a retórica e a escrita se a pomos apenas ao serviço da destruição e acusação infundada sobre a vida do próximo?! De que vale gritar e apelar por uma sociedade mais democrática e justa, se no fundo não aceitamos opiniões diferentes da nossa. Queremos liberdade de expressão apenas para insultarmos os outros - de forma cobarde pelas costas e sob o anonimato - porque não sabemos aceitar uma opinião quando emitida de forma franca, aberta e assumida e, para mais, passível de ser contestada num saudável debate real e não apenas virtual. Vamos lá ser coerentes caramba! P.S. - Um dia conheci um amigo muito especial que me disse: "Num ninho de serpentes todas tentam morder-se umas às outras e eventualmente acabam por morder a própria cauda". O Ouroboros é uma representação gráfica de uma serpente que morde a própria cauda e simboliza a eternidade, evoca a roda da existência. Não obstante, simbolismos à parte, quando me deixo consumir pelas minhas mágoas e decepções imagino a serpente a sofrer uma morte lenta e dolorosa, cheia de esgares e gritos, só e abandonada num canto da estrada, consumida pelo próprio veneno! Mas reflicto um pouco melhor e chego à conclusão que somente com o perdão e um sorriso poderei viver melhor comigo próprio e com o mundo e isso basta-me!