O Porto do Funchal (inaugurado em 1961), o aeroporto de Santa Catarina (1965) e o actualmente designado Hospital Nélio Mendonça (1973) constituem as obras mais relevantes da Madeira, efectuadas pelo regime do Estado Novo. Agora aos 40 anos e fruto dum projecto cujos conceitos arquitectónicos e tecnológicos datam da década de 50, o hospital carrega o peso da idade e da inadequação física às necessidades da Medicina do século XXI. Este hospital acarreta elevados custos de manutenção. Acima de tudo, o conforto que dá aos doentes é muito inferior ao dos hospitais mais recentes das outras grandes cidades do país. Os actuais conceitos de arquitectura hospitalar relevam estruturas modulares abertas, polivalentes, capazes de absorver e adaptar-se à rápida evolução da medicina. Relevam estruturas ambientalmente económicas, de reduzida manutenção, funcionais na mobilidade interna de pessoas e materiais, inteligentes na iluminação, seguras nos revestimentos, exigentes no controlo da qualidade do ar, tão importante no controlo da infecção hospitalar. Relevam a separação das áreas de serviço (assépticas e funcionais) das áreas públicas e dos alojamentos (agradáveis aos doentes e visitantes). Uma dinâmica em que os corredores da alimentação, do lixo, da medicação e manutenção não sejam compartilhados com visitantes. Em que as zonas de convívio e visitas não sejam só a cama ou o corredor das enfermarias mas aprazíveis áreas multifunções. Relevam a privacidade do doente com enfermarias radiais, com zonas de trabalho centrais para melhor organização e produtividade. Com quartos limitados a dois doentes em todo o hospital, com facilidades de higiene e banho privadas, dotadas de meios de monitorização do doente. Relevam a importância da interacção com ensino médico e de enfermagem que um condigno auditório facilitaria. Desse poder-se-iam assistir, em tempo real, a cirurgias e técnicas de diagnóstico efectuadas entre muros, a conferências multimédia, entre outras, promovendo o turismo científico e de congressos tão caro à Madeira. Relevam uma envolvência hospitalar verde, aberta, serena, preferencialmente separadas das ruidosas vias de acesso urbano, com espaços para expansão futura de acordo com a evolução das necessidades. Relevam a existência de estacionamentos acessíveis e servidos de transportes públicos adequados. Relevam aglutinar nas mesmas instalações os serviços conexos como a emergência médica, a medicina legal e logística da tutela. Acima de tudo, um hospital simbiótico, de estrutura única, funcional e produtiva, para não duplicar instalações e desperdiçar mão-de-obra. Em suma, moderno, a pensar no bem-estar do doente e na gestão criteriosa dos recursos. Como o sábio povo diz, o barato acaba por sair caro. A análise atenta das actuais instalações revela estarem distantes destes conceitos. Cercado a nascente pela via de acesso ao Funchal e a poente pela encosta da ribeira, o recinto hospitalar está já ocupado por uma dezena de edificações de diferentes tamanhos e desconectadas entre si. Contando com o piso das consultas do hospital, os treze andares são servidos por poucos elevadores, carecendo de funcionalidade pois nenhum deles serve todos os pisos. A evacuação dos acamados num eventual incêndio far-se-à de elevador, pois não há rampas. Um único corredor linear serve setenta camas de internamento só servidas por duas áreas de higiene, negando qualquer privacidade. Há enfermarias compartilhadas por seis doentes. Falta isolamento térmico e acústico para conforto e poupança nos custos energéticos. O Hospital dos Marmeleiros constitui um sorvedor de recursos pelo seu distanciamento na freguesia do Monte. O Serviço de Urgência necessita de "respirar" novos ares, incapaz de se livrar de doentes nos corredores e de oferecer o mínimo de privacidade e conforto físico a quem a ele recorre. Os madeirenses e os seus governantes já deram provas que, quando querem, edificam a excelência. Então que a casa mãe da saúde na Madeira seja o exemplo supremo dessa excelência e um ex-líbris da nossa autonomia. Os doentes madeirenses certamente merecem.

Mário Pereira