
A Natureza vai pondo a nu obras que nasceram na presunção de uma falsa noção de domínio sobre riscos que o Homem subestima Precisamente sete anos após os atentados terroristas cometidos em quatro comboios de Madrid, que chocaram a Europa e o Mundo, temos assistido estupefactos às consequências do abalo de um dos mais trágicos sismos de que há memória entre os vivos. Volvidas três semanas após o 11 de Março, as preocupações já nem estão centradas no devastador terremoto de 8.9 na escala de Richter (entretanto revisto para 9.0) – o 4.º mais forte desde 1900 - nem o consequente tsunami com ondas que ultrapassaram os 23 metros de altura e que engoliram a costa oriental do Japão, deixando navios encalhados no telhado de prédios edificados com estruturas mais preparadas para suportar as sacudidelas da Terra do que as loucuras do mar. Progressivamente, percebemos que a tragédia natural responsável pela morte de mais de 11 mil pessoas na terra do Sol nascente é ofuscada pela monumental imprudência do Homem que acaba de assinar o termo de responsabilidade de um desastre nuclear porventura maior que o de Chernobyl, de 1986. Só nas próximas gerações será possível contabilizar os danos genéticos e os efeitos para a saúde causados pela libertação de iodo, plutónio, estrôncio e césio que compõem a nuvem radioactiva proveniente dos seis reactores de Fukushima, numa situação ainda longe de estar controlada. Apesar de ser a maior produtora de energia nuclear, a Europa sempre teve uma aversão a ‘kamikazes’. E ninguém está disposto a pôr em marcha um plano ousado, com cobaias (ou se quiser heróis) humanas, à semelhança do que foi posto em prática por Tóquio para travar os efeitos do ‘boom’ nuclear: perto de 300 homens e mulheres que, de fatos, botijas de oxigénio e capacetes, tentam arrefecer os reactores nucleares de Fukushima e travar uma autêntica ‘bomba-relógio’ atómica. Aos poucos, a Natureza vai pondo a nu, através das suas leis e da sua ciência, obras que nasceram na presunção de uma falsa noção de domínio sobre riscos que nunca chegaram a ser calculados na sua verdadeira dimensão ou previstos nos diversos níveis. Neste capítulo, o Japão – o 3.º em número de reactores nucleares – está a dar um sinal claro de que a produção de energia nuclear é um falhanço estrondoso, contribuindo para o despertar de uma consciencialização ecológica global que parecia estar adormecida ou refém de meia dúzia de organizações não governamentais e de activistas. Na Alemanha ultra-conservadora e nuclear de Baden-Wusttemberg, por exemplo, onde a União Democrática Cristã da chanceler Angela Merkel exercia o poder de forma ininterrupta desde 1953, o partido verde mais do que duplicou o número de votos nas eleições regionais e prepara-se agora para governar pela primeira vez, ainda que numa coligação com os social-democratas. E este não é propriamente um caso insólito em que ecologistas ascendem ao poder na Alemanha, o 3.º europeu no ‘ranking’ atómico, depois de França e Reino Unido. Portugal optou por outras alternativas de produção energética, recorrendo às fontes limpas - eólica e solar - que até são exemplares. Mas não estamos safos da poeira radioactiva, pois a atmosfera é um condomínio global. Agora que a crise económica e financeira nos afoga mais do que o nuclear, constata-se que até nesse campo a semântica é verde. Verde de esperança na reciclagem, depois de a ‘Standard & Poor’s’ cortar o ‘rating’ de Portugal para ‘BBB-', um nível acima de “lixo”. Por cá, na ilha, dispensamos o nuclear, mas adoptamos os mesmos conceitos, usando as pás das máquinas escavadoras para ‘disciplinar’ ribeiras, como se os cursos de água fossem meninos birrentos que têm de ser reprimidos, atiramos lixo inerte para o mar, mas continuamos a desfigurar vales e montanhas com pedreiras, lavrando a doutrina da supremacia, não do Homem, mas do feroz animal político sobre todas as coisas: a ciência, as leis da física, a geologia, a oceanografia. Podemos não ter reactores nucleares mas não faltam ‘bombas-relógio’. Tal como em Fukushima, os danos calculam-se depois.
A Natureza vai pondo a nu obras que nasceram na presunção de uma falsa noção de domínio sobre riscos que o Homem subestima
Precisamente sete anos após os atentados terroristas cometidos em quatro comboios de Madrid, que chocaram a Europa e o Mundo, temos assistido estupefactos às consequências do abalo de um dos mais trágicos sismos de que há memória entre os vivos. Volvidas três semanas após o 11 de Março, as preocupações já nem estão centradas no devastador terremoto de 8.9 na escala de Richter (entretanto revisto para 9.0) – o 4.º mais forte desde 1900 - nem o consequente tsunami com ondas que ultrapassaram os 23 metros de altura e que engoliram a costa oriental do Japão, deixando navios encalhados no telhado de prédios edificados com estruturas mais preparadas para suportar as sacudidelas da Terra do que as loucuras do mar.
Progressivamente, percebemos que a tragédia natural responsável pela morte de mais de 11 mil pessoas na terra do Sol nascente é ofuscada pela monumental imprudência do Homem que acaba de assinar o termo de responsabilidade de um desastre nuclear porventura maior que o de Chernobyl, de 1986. Só nas próximas gerações será possível contabilizar os danos genéticos e os efeitos para a saúde causados pela libertação de iodo, plutónio, estrôncio e césio que compõem a nuvem radioactiva proveniente dos seis reactores de Fukushima, numa situação ainda longe de estar controlada.
Apesar de ser a maior produtora de energia nuclear, a Europa sempre teve uma aversão a ‘kamikazes’. E ninguém está disposto a pôr em marcha um plano ousado, com cobaias (ou se quiser heróis) humanas, à semelhança do que foi posto em prática por Tóquio para travar os efeitos do ‘boom’ nuclear: perto de 300 homens e mulheres que, de fatos, botijas de oxigénio e capacetes, tentam arrefecer os reactores nucleares de Fukushima e travar uma autêntica ‘bomba-relógio’ atómica.
Aos poucos, a Natureza vai pondo a nu, através das suas leis e da sua ciência, obras que nasceram na presunção de uma falsa noção de domínio sobre riscos que nunca chegaram a ser calculados na sua verdadeira dimensão ou previstos nos diversos níveis. Neste capítulo, o Japão – o 3.º em número de reactores nucleares – está a dar um sinal claro de que a produção de energia nuclear é um falhanço estrondoso, contribuindo para o despertar de uma consciencialização ecológica global que parecia estar adormecida ou refém de meia dúzia de organizações não governamentais e de activistas.
Na Alemanha ultra-conservadora e nuclear de Baden-Wusttemberg, por exemplo, onde a União Democrática Cristã da chanceler Angela Merkel exercia o poder de forma ininterrupta desde 1953, o partido verde mais do que duplicou o número de votos nas eleições regionais e prepara-se agora para governar pela primeira vez, ainda que numa coligação com os social-democratas. E este não é propriamente um caso insólito em que ecologistas ascendem ao poder na Alemanha, o 3.º europeu no ‘ranking’ atómico, depois de França e Reino Unido.
Portugal optou por outras alternativas de produção energética, recorrendo às fontes limpas - eólica e solar - que até são exemplares. Mas não estamos safos da poeira radioactiva, pois a atmosfera é um condomínio global. Agora que a crise económica e financeira nos afoga mais do que o nuclear, constata-se que até nesse campo a semântica é verde. Verde de esperança na reciclagem, depois de a ‘Standard & Poor’s’ cortar o ‘rating’ de Portugal para ‘BBB-', um nível acima de “lixo”.
Por cá, na ilha, dispensamos o nuclear, mas adoptamos os mesmos conceitos, usando as pás das máquinas escavadoras para ‘disciplinar’ ribeiras, como se os cursos de água fossem meninos birrentos que têm de ser reprimidos, atiramos lixo inerte para o mar, mas continuamos a desfigurar vales e montanhas com pedreiras, lavrando a doutrina da supremacia, não do Homem, mas do feroz animal político sobre todas as coisas: a ciência, as leis da física, a geologia, a oceanografia. Podemos não ter reactores nucleares mas não faltam ‘bombas-relógio’. Tal como em Fukushima, os danos calculam-se depois.