
Os dois casos de pessoas com fracturas, que foram mandadas para casa depois de horas nas urgências do hospital, até podem ter explicações lógicas, mas não vai ser fácil convencer até as mentes mais abertas, de que não se trataram de casos de negligência, incompetência ou grandes azares a que o sistema deveria estar imune. Se é razoável admitir que uma idosa possa ter agravado uma fractura do colo do fémur - espero estar a dizer certo -, já não é tão fácil perceber como se manda para casa um homem com o nariz partido, oito costelas fracturadas e perfuração pulmonar. Com esta descrição era candidato aos cuidados intensivos e não a um simples analgésico.
É claro que vai haver inquéritos e mais umas tantas averiguações, mas o resultado será o habitual 'pontapé para cima, pontapé para baixo', em que a culpa serve de bola e nunca entra na baliza.
Parece óbvio que, neste caso como em muitos outros, a haver culpa, a dose maior, quase total, é de quem estava lá. Se não houver atenuantes, como uma assustadora troca de exames - nesse caso também há responsáveis que deverão ser penalizados -, incompetência será a classificação mais branda a aplicar. Mas dificilmente será assim.
A via mais fácil, ao contrário do que o Povo diz, é mandar as culpas para cima. Bater na administração do hospital, no director de serviços, no director das urgências, em suma, no 'chefe'. Nessa entidade tão odiada e de quem se espera que seja infalível, omnipresente e com o dom de antecipar os erros dos subordinados.
Como sempre acontece neste País, quem faz asneira tem alguém a quem remeter responsabilidades. Se o texto tem gralhas e erros... a culpa é do 'revisor', se houver, ou de quem deveria reler aquilo que escrevi. Se não houver 'chefe' à mão, é fácil queixar-se de falta de condições, excesso de trabalho e pressão psicológica. Se nada disso resultar... a culpa é do Sócrates. Mesmo demitido.