Nas próximas semanas vamos assistir a um intensificar do habitual chorrilho panfletário de acusações entre partidos políticos sobre de quem é a culpa pela situação atual de Portugal e da Madeira. O governo regional irá acusar Lisboa pelos males da Madeira e esquecer as suas responsabilidades em mais de 30 anos de Autonomia. O ainda governo da república irá colocar sobre os ombros da situação internacional a responsabilidade pelas dificuldades que o país atravessa. Os portugueses e madeirenses irão apontar o seu dedo acusador aos políticos de quem menos gostam e nem vão refletir sobre o que nos fez chegar a este ponto. Ninguém irá assumir as suas responsabilidades e muito menos as suas culpas. Todos os partidos terão uma solução mais ou menos fácil para oferecer a troco da preferência do eleitorado. Nenhum irá falar verdade sobre os sacrifícios que exigirá caso seja escolhido para governar. Sabem perfeitamente, e vão usar esse trunfo até à exaustão, que o que mais atrai os eleitores são as promessas impossíveis, o Paraíso na Terra. Têm uma máscara para ser oposição e para fazer campanha, e outra completamente diferente para governar. Quanto a isso, nada irá mudar. Também nós, cidadãos e eleitores, gostamos de nos confortar com a sensação de que em nós não reside culpa. Os que votaram em quem governa, cá e lá, os que nem foram votar e até os que apoiaram a oposição, todos carregam, mesmo que disso não tenham consciência, responsabilidades pela bancarrota do país e da Madeira. Somos todos culpados por ação ou omissão. Culpados pelo contributo individual e pelo apoio coletivo. Enquanto Portugal se transformava no país da Europa com mais quilómetros de autoestradas por habitante, apesar de ser um dos mais pequenos, aplaudíamos. Enquanto a Madeira construía uma piscina em cada freguesia, juntávamo-nos à algazarra da espetada na inauguração (mesmo que estivéssemos em casa no sofá). Enquanto jorravam os fundos comunitários para obras que não acrescentavam competitividade à nossa sociedade, aceitávamos como mal necessário o endividamento que nos afoga. Enquanto o nosso clube do coração recebia (e recebe) milhões de euros em subsídios dos nossos impostos, deliciávamo-nos com os relatos de futebol. Agora que chegou a fatura dos nossos desvarios, não queremos pagar. Temos de estar mais atentos e pensar nas consequências das nossas opções individuais e coletivas. Agora, com mais impostos, mais despedimentos e menos salário, não podemos continuar a aplaudir a mesma forma de governar e voltar a depositar nas urnas o voto do conformismo e do facilitismo.
Hélder Spínola