O que dizer quando uma pessoa chega a um serviço de Urgências com oito costelas partidas, nariz fracturado e um pulmão perfurado e é mandada para casa com uma receita de ‘ben-u-ron’ no bolso, o mesmo ‘ben-u-ron’ que se toma para baixar uma febre de meia-dúzia de décimas ou para amainar uma dor de cabeça que nunca chegará a ser enxaqueca?

O que dizer quando uma pessoa idosa, depois de uma queda aparatosa é mandada para casa com recomendações de repouso, mas as dores provocadas por uma fractura do fémur impedem o descanso?

O que dizer de aparelhos que se avariam obrigando doentes a horas intermináveis de espera e a boleias de ambulâncias para que possam fazer os exames recomendados noutros pontos da cidade?

O que dizer quando faltam medicamentos, seringas e gaze? O que dizer quando se amontoam macas e doentes em corredores? O que dizer quando dívidas se acumulam provocando cortes de fornecimento e ameaças? O que dizer quando a torneira pinga numa casa de banho sem condições ou quando, num quarto particular, os acompanhantes pagam para dormir numa cadeira feita cama?

O que dizer quando faltam médicos, enfermeiros, quando as listas de espera para consulta ou cirurgias continuam a aumentar sem destino? O que dizer das greves, das horas extraordinárias com limites, das brigas internas de um serviço de saúde que acabam sempre por prejudicar quem tem menos culpas no cartório?

O que dizer quando um novo hospital é preterido por uma ampliação de um edifício projectado nos anos 60 e completamente ultrapassado?

O que dizer quando a saúde parece estar doente e não há forma simples e rápida para tratar todas as enfermidades?

Numa questão tão sensível como a da Saúde, as palavras não chegam para apontar soluções e resolver problemas, principalmente como, em tantas outras situações, quem tem responsabilidade na matéria tenta atirar areia para os olhos de quem vê o que realmente se passa, para logo pintar o cenário que é negro (ou pelo menos cinzento muito escuro) de azul-céu, verde-esperança e sorrisos com branqueador.

Na Região existe um único serviço público de saúde e um único hospital central. É por isso imperativo que tudo funcione como deve de ser, ou pelo menos, que as pessoas que precisam de ali recorrer (e todos nós precisamos, mais dia menos dia), tenham a garantia de que serão bem tratadas e que ali farão tudo o que é possível para que alguém que chega doente saia sem mazelas. E neste momento, não há garantias, não há certezas, apenas medo, receio, sobressalto e as rezas diárias para pedir mais um dia sem queixas.

É que quando a Saúde está doente, o problema é que não se cura apenas com averiguações ou diagnósticos. Não bastam pastilhinhas para a tosse nem ‘ben-u-ron’. São precisos tratamentos, às vezes de choque…