Há uns anos, esta pergunta interpelou-me. Ainda hoje me inquieta. Fez-ma um homem quieto, discreto. Tinha nascido no Funchal em 1930 e viajado, aos dezoito anos, para Coimbra para estudar Direito. Porque não se reconhecia no espírito da Lei, mudou de rumo e de curso. Foi estudar Letras, mas também aí descobriu ser outra a sua gramática. A nova rota foi a Europa. Cortou legumes, apanhou aparas de papel, foi operário fabril e guia de marinheiros em bairros sombrios de Amsterdão. Trabalhou para viver. E voltou. Em Lisboa, durante os anos sessenta e setenta do século que passou, seguiu e cuidou das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1963, interrogou-se: "tudo está em saber se se trata de um trabalho útil. A coisa é útil?" Talvez poucos de nós tenhamos a coragem e o desapego de nos inquietarmos com esta pergunta. Talvez sejam ainda mais raros aqueles de nós que possam saber ou sequer inquirir o que é 'útil'. Este homem ajudou-me - e ajuda-me ainda (porque não sei) - a pensar o que seja a utilidade (para além de todo o pragmatismo, que é coisa diferente). "O teorema de Pitágoras, a invenção da roda e do parafuso, a descoberta do arado, a ideia de igualdade entre os homens, as astronaves, a arquitectura funcional, a revolta contra os tiranos - tudo isso em que a civilização se aplicou, e foi e é um degrau imaginado no percurso para um tempo melhor encontra beleza ao atingir o poema." O poema, sim. A poesia feita 'coisa' útil, "uma actividade paralela à ciência, à astronomia, à música, à arquitectura. Paralela à carpintaria, à mecânica, à engenharia, à agricultura." A poesia ligada "à circunstância universal do homem, à matéria da sua história, à experiência difícil do trabalho pela liberdade e felicidade". Liberdade e felicidade, sim. Importa-me, nestes tempos incertos, sublinhar estas palavras. Liberdade e felicidade foi o que senti, há uns dias, quando, ao passear com a Matilde (sábia nos seus nove anos), ela me ensinou que as bicicletas foram criadas para substituir os cavalos. Liberdade e felicidade foi também o que senti quando a Inês (que mora no meu bairro) me ofereceu uma pêra abacate plantada e colhida no terreno de sua casa. Sem terem lido Herberto Helder - que muito justamente foi o poeta português escolhido para celebrar o Dia Mundial da Poesia no Centro Cultural de Belém, em Lisboa - a Matilde e a Inês souberam criar o "degrau imaginado no percurso para um tempo melhor". Eu acredito este homem quieto e discreto concordaria que estas são 'coisas' úteis que tornam menos árdua "a experiência difícil do trabalho pela liberdade e felicidade". Por um tempo melhor.
Diana Pimentel