Podia falar da crise política e da outra mais grave e profunda. Do país e das coisas sérias, da economia e do 'rating'. Mas não me apetece.
Hoje, quando acordei, um barco passava em frente às ilhas Desertas. O sol reflectia o mar ou vice-versa. Não tenho a certeza.
Fotografei o instantâneo e aprisionei a imagem numa tentativa de domesticar o mundo.
As ilhas no horizonte não têm preço, não oscilam nos mercados, não sobem e descem o valor. Às vezes, e só às vezes, desaparecem dias seguidos como por magia. Uma espécie de magia africana que se opera no vento de Leste e na poeira do deserto que, dizem, fica próximo, muito próximo.
Gosto desta magia que as ilhas e o mar transportam. Da mesma forma que gosto de desenhos animados e de histórias, de livros e de palavras...
E, por instantes, vinda do mar ou das ilhas que ficam em frente à minha janela, surge a memória do sorriso da Sofia. A Sofia e os seus orgulhosos cinco anos de sabedoria. Vejo-a triunfante em direcção a mim. O dedo a apontar para os dentes de baixo e a notícia mais importante da última semana: "Tenho dois dentes que vão cair".
E os dentes oscilam com a pressão exercida pelo dedo indicador, a provar o equilíbrio precário e a queda anunciada.
"Sabes que uma fada deixa uma prenda por cada dente que cai?" Sim, sabia. Se calhar, já tinha esquecido, mas sabia desde o tempo das coisas verdadeiramente importantes. "Já viste quantos dentes tenho?" Volta a perguntar a Sofia, exercitando a matemática simples da surpresa e do encanto. Dois mais dois, quatro mais quatro, até somar todos os dentinhos de leite de um sorriso.
A Sofia acredita em fadas, em castelos, em príncipes e princesas. A Sofia sorri e leva-me pela mão. "Vamos brincar?". Sim, podemos brincar. Até porque, que eu saiba, ninguém ainda baixou o 'rating' das fadas e dos seus milagres, o Peter Pan não paga IVA, o Shrek não sabe o que é a Contribuição Autárquica e a Bela Adormecida dorme e sonha.
Fechamos os olhos e esperamos o beijo do Príncipe Encantado, ou a Fada dos Dentes.