José Sócrates saiu como entrou: a dramatizar, a dissimular, a iludir. E, convenhamos, neste capítulo o Primeiro-Ministro demissionário sempre foi um mestre, um exímio contador de "estórias". Ciente de que a sua sentença de morte estava aprazada para a discussão do orçamento de 2012, lá para Novembro, e sabendo que o pedido de ajuda externa estava iminente - o recurso ao Fundo de Estabilidade Financeira já implicaria um controlo da parte do FMI - Sócrates ansiava por uma oportunidade para bater com a porta e escapar como vítima, culpando os outros pela crise que ele próprio vem, há muito, laboriosamente tecendo. Como a ocasião não surgia, provocou-a. Alguém ainda acredita que se o primeiro-ministro estivesse mesmo interessado em aprovar o PEC 4, permitiria que este fosse anunciado da forma "mais desastrada e desastrosa", nas palavras de António Costa, como fez o Ministro das Finanças? E tê-lo-ia apresentado em Bruxelas sem, ao menos, dá-lo a conhecer ao maior partido da oposição (como o fez nos PEC's anteriores)? E teria cometido a deselegância e imprudência de não informar o Presidente da República? E teria chegado ao cúmulo de o esconder dos restantes membros do governo, que só conheceram as medidas no passado Domingo? Claro que não. Só que, na versão contada por Sócrates, é como se o Lobo Mau não passasse de um frágil e indefeso canídeo, vítima do calculismo perverso do Capuchinho Vermelho que, de forma insensível e cruel, deu cabo da Avó para depois culpar o angélico animal, que afinal tudo tinha feito para salvar a pobre senhora... Mas, se é razoável que alguns caiam neste conto uma vez, já à segunda só cai quem quer. Agora, cair terceira?!... Bem, só quem for parvo, para usar uma expressão simpática.
Luís Nuno Olim, Jurista