Num país a sério, não seriam precisas quatro horas de debate parlamentar inútil para um desfecho que já todos conhecíamos. Um último acto com os actores de sempre, previsíveis até a ponta dos cabelos, e sem ‘gran finale’.

Num país a sério, o primeiro-ministro que ameaça demitir-se, caso o Plano de Estabilidade e Crescimento não seja aprovado, no mínimo assiste ao debate que considera crucial para o seu futuro e do país.

Num país a sério, a oposição não deveria rejubilar por ir ao cada vez mais vazio pote nacional, quando se está no limite da bancarrota.

Num país a sério, o principal candidato a vencer as eleições não teria a coragem de dizer aos eleitores que não se sabe bem o estado das Contas Públicas, para depois poder justificar a austeridade que aí vem. Nunca se conheceu tão bem a situação financeira do país como hoje.

Custa-me mesmo a acreditar que num país a sério da Europa, que está em colapso, os partidos só consigam entendimento na necessidade de eleições antecipadas. E que quem está de saída ameace: “Um não entendimento agora vai dificultar entendimentos mais tarde”.

Num país a sério, o partido que quer assumir o poder não manda para o palanque o seu orador mais credível para dizer aos cidadãos que as mesmas medidas tomadas por outras pessoas terão um efeito externo mais vantajoso.

Num país a sério não se fulanizava tanto a política. “Só brincamos aos Governos com o partido X se o engenheiro não brincar?”. Isto é mesmo a sério?

E mais: Se isto fosse a sério o Presidente da República não assistiria, de pantufas, ao incêndio que ele próprio ateou, qual pirómano político. O chefe de Estado argumentou que é tarde de mais para intervir. Será que os portugueses não acharão o mesmo e não vão preferir ficar em casa no dia de ir votar em tão tristes e pobres candidatos?

Se isto fosse a sério, como na Irlanda, já haveria negociações entre os partidos de maiores responsabilidades nas medidas cruciais que terão de ser tomadas. Mas a classe política nacional continua a fazer de conta, a brincar num país que só deve existir na imaginação de alguns. Age como se houvesse dinheiro para gastar, como se a economia, esquelética e moribunda, estivesse pronta a sair dos paliativos pelo seu pé.

Vale tudo pela ida ao pote. Falemos a sério, para variar!