35 anos depois, o DIÁRIO proporcionou o reencontro do grupo que contribuiu para uma das boas páginas da história do CF União e do futebol madeirense. Ponto de encontro: Complexo Desportivo do clube 'azul-amarelo', na Camacha. Um convívio organizado pela empresa YIC events e patrocinado pela 'Gastromadeira', ao qual se associou a Rádio União. O primeiro a chegar foi o último a ser contactado, Rui Alberto. O peso da idade mudou-o, como é natural, ao ponto de ninguém o reconhecer. "De certeza que não jogou comigo no União", apressou-se a referir Albino Andrade. Egídio, o funcionário dos Barreiros, também não o identificu à primeira, mas logo que se redescobriram uns aos outros, a(s) história(s) dos anos 70/80 saíram do baú das memórias. Estava dado o mote, portanto, para o homem dos 'sete ofícios' dos veteranos do União, João Carlos, equipar os ex-atletas. Dificuldades acrescidas para algumas barriguinhas mais dilatadas, pois claro. A excepção, neste animado particular, foi Egídio, o ex-capitão. Hoje, como ontem, fisicamente o mesmo: fino! Tão magro que a camisola mais parecia um 'saco'. E para o momento ser ainda mais fidedigno, Egídio não dispensou a braçadeira, enquanto Humberto, o então 'puto' da equipa, ficou com a bola. 'Boavistão' de Pedroto curvou-se Pouco tempo depois da 'revolução dos cravos', um militar promoveu uma autêntica revolução num clube cujo um dos fundadores foi o seu progenitor. Falamos do coronel Ramiro Morna. O Marítimo tinha acabado de ascender aos 'nacionais' na temporada 1974/75, o Nacional seguiu as mesmas pegadas na época seguinte. Dos 'três grandes' apenas o histórico 'uniãozinho da bola' ficou a competir na ilha. Ramiro Morna decidiu fechar a sede para obras e começou a formar um plantel mas com regras bem definidas: "Quem quisesse jogar no União teria de o fazer por amor à camisola, não havia dinheiro para ninguém". A escolha no treinador recaiu em Quim Teixeira, um dos primeiros madeirenses não licenciados a apostar na carreira de técnico. Quim Teixeira teve de recorrer à 'prata da casa', aproveitando valores da formação como Juca, João Carlos, Ludgero Castro, Amílcar, Humberto, Necas, Casaca, e outros, mais experientes, como Egídio, Aires ou Albino Andrade, entre outros. A primeira grande contratação (sem custos) foi a de José Luís 'Saca', um predestinado para o futebol, um dos que passou ao lado de uma grande carreira. A outra aquisição chamou-se Ludgero, avançado do Porto Santo. muito bem cotado na Ilha Dourada. Da formação do Marítimo transferiu-se Rui Alberto e o plantel ficou praticamente fechado, com a vinda de Ascensão, um 'xavelha' que jogava no Lazareto. 'Cidade' e 'Apuramento' ganhos A época não poderia começar melhor para o União, com vitórias na Taça da Cidade e no Torneio de Qualificação para a Taça de Portugal, motivo que justificou um 'voto de louvor' gravado em acta pela direcção do clube. Já no campeonato da Madeira as coisas não correram de feição, quedaram-se pelo 4.º lugar, atrás de Machico (campeão, com 15 pontos), Sporting da Madeira (14) e Santacruzense (13). As saídas de José Luís 'Saca' e Casaca, que emigraram em Janeiro para o Reino Unido, foram baixas de vulto, que de certa forma contribuíram para desequilibrar a capacidade da equipa. Auge contra João Alves na 'Taça' O ponto alto da época unionista deu-se no jogo disputado no Estádio dos Barreiros, a 28 de Março de 1976. Na qualidade de representante do futebol regional, coube ao União receber o Boavista orientado por José Maria Pedroto. Um conjunto que tinha ganho o epíteto de Boavistão. Na época, os axadrezados chegariam à final e derrotaram o Benfica (2-1), levando para o Bessa o respectivo troféu. Aliás, quando defrontaram o União ocupavam o 2º lugar no campeonato. O cenário era negro mas... acabou por sê-lo para os homens de xadrez! O União foi 'gigante', vendendo cara a derrota. O golo que ditou a vitória do Boavista adveio, segundo toda a crítica, de um lance precedido de fora-de-jogo, já muito perto do final da partida, revoltando os milhares de adeptos presentes e a invasão de campo esteve iminente, de nada valendo ao árbitro ter trocado a posição dos auxiliares. No Boavista alinhava um grande jogador chamado João Aves, que mais tarde haveria de transferir-se para o Benfica, mais conhecido por 'luvas pretas'. Todavia, nesse jogo o internacional português foi alvo de uma marcação impecável por parte do unionista, Teixeira, passando praticamente à margem da partida. "Pigmeu venceu Gigante" Toda a comunicação social, bem como Pedroto, teceu rasgados elogios à prestação dos unionistas. O técnico do Boavista referiu, então, que "o União foi uma equipa muito bem organizada, colectivamente muito inteligente e que demonstrou saber o que quer e o que faz". Já João Alves pediu desculpas aos adeptos madeirenses por não ter correspondido ao que dele esperavam, justificando: "não esperava que pusessem em cima de mim um homem durante todo o jogo". O jornalista desportivo, e treinador, José Manuel Silva comentou que "um pigmeu venceu um gigante". Nicodemos Fernandes, escreveria no DIÁRIO que "o União mesmo saindo derrotado em circunstâncias irregulares, prestigiou o futebol da sua terra e as próprias competições. Um 'bravo' bem alto para toda a família unionista". Vendido por 70 contos Na equipa do União pontificou um jogador de nome Humberto, então conhecido por 'Canica', O Marítimo mostrou interesse, consumando-se a transferência por 70 contos (moeda antiga), acrescido da receita de um jogo entre ambos os clubes. Camisolas novas! Todos recordam a grande surpresa proporcionada por Ramiro Morna que, antes do jogo com o Boavista surgiu nos balneários com novas camisolas amarelas, uma imitação da marca Adidas. Eram "velhinhas e pobrezinhas" mas foram um tónico que galvanizou a equipa. Segue-se a AD Machico O União marcou o arranque de diversas iniciativas do género, com data de publicação aprazada para a última sexta-feira de cada mês. Segue-se a AD Machico, a 29 de Abril. Histórias inolvidáveis... Albino Homenagem ao pai "Nas vésperas do jogo com o Boavista, fui ao Hospital visitar o meu pai, que estava muito mal mas pediu-me para jogar à mesma. Na 6.ª feira disseram-me que tinha falecido, não pude acompanhar os meus colegas para estágio, mas no sábado, depois do funeral, juntei-me a eles. Até parece que houve alguém que olhou por nós pois poderíamos ter ganho e eliminado o Boavista", recorda com emoção. Ludgero Castro o BMW e a sede Ludgero Castro, da sua passagem pelo União, destacou os nomes de Ramino Morna, Ilídio freitas e João Freitas. "Além de dirigentes ajudaram-nos a crescer como homens". Altura pródiga em histórias engraçadas que ainda hora guarda com saudade. Recorda o de Necas ter sido "preterido" por Basílio. E justifica a opção do técnico Quim Teixeira. "Enquanto o Necas não tinha carro, o Basílio tinha um BMW que ajudava e muitos nos transportes". Lembra ainda novo episódio: "O Ascensão estava na tropa e pediu 2 dias de licença ao coronel para passar junto da família. Foi-lhe concedida autorização e quando pensava que ia para C.ª Lobos acabou na Rua da Carreira a pintar a sede do União". Humberto Câmara mea culpa! Humberto Câmara trouxe à memória a época 75/76 penitenciando-se de alguma "ingenuidade e a ânsia da juventude" pois se marcasse as duas oportunidades de que dispôs contra o Boavista poderiam "ter ido mais longe na Taça de Portugal". Hoje, talvez visse o colega melhor colocado. Uma viagem no fim da época aos Açores "as brincadeiras de grupo, e o estágio no Hotel do Santo da Serra, antes do jogo com o Boavista", foram outros registos dos tempos que já lá vão, numa altura em que até punha "pedras" dentro da mala de alguns colegas. Ludgero lágrimas de alegria Muito emocionado, Ludgero ('profeta') não conseguiu conter as lágrimas: "É um convívio que me marca muito ao vir reencontrar, muitos anos volvidos, tantas pessoas amigas com quem partilhei bons momentos da minha juventude". Morna para sempre líder Líder sempre, Morna ganhou o respeito de todos. Começou por se dirigir a Saca, "era um reguila e foi para a gaiola". "Então decidi que em vez de estar de barriga para o ar, iria pintar no quartel, mas como era malandreco só pintava quando eu ou algum responsável passava no local, de resto mandava era os outros trabalhar". Recordou a excelente marcação de Teixeira a João Alves. E, a propósito, alguém lembrou o 'Luvas Pretas' até protestou: "oh homem, deixa-me em paz que o jogo já terminou". Juca (pai) pela extrema dedicação ao Clube, bem como Arlindo, que treinou durante muitos anos vários escalões da colectividade, foram nomes recordados, num evento que para alguns teve "prolongamento". Vítor "abraço ensebado" Vítor recorda um episódio passado com o coronel Morna: "Um abraço com muito significado para mim, por ter marcado 2 golos ao Marítimo. Eu estava todo ensebado e aquele gesto marcou-me muito e deixou-me feliz". Rui Alberto nascimento da filha "Aguentem mais 15 anos que eu vou fazer o mesmo para voltarmos a encontrar-nos novamente aqui ou noutro lugar e partilharmos de novo bons momentos". O estágio da equipa no Santo da Serra foi marcante para o ex-avançado, pois recebeu "a feliz notícia do nascimento da primeira filha". João Carlos a prótese dentária "Lembram-se do Boavista, mas para lá chegarmos houve um jogo decisivo com Machico, onde eu marquei o golo da vitória. Após tantos festejos e abraços não só perdi a memória como vocês me partiram a prótese dentária. Vejam lá se pagam agora os prejuízos que me fizeram", gracejou, recordando que Quim Teixeira assumiu as despesas (500 escudos). 'Saca' extraordinário Casaca Casaca "foi dos melhores que conheci na vida". "Era um jogador extraordinário e quero aqui recordá-lo e prestar a minha homenagem. Com ele e comigo na equipa tínhamos eliminado o Boavista", garantiu.
Miguel Justino
