Quando há menos de quinze dias o mundo foi surpreendido com a catástrofe do Japão, a segunda maior economia do mundo, o homem voltou a ser confrontado com a sua condição trágica, obrigando-se a rever a sua mísera condição de ser mortal, vítima das contingências. Nada de novo, é certo, pois desde os primórdios do pensamento ocidental a presença inelutável do mal na existência humana despoletou infindáveis reflexões que, apesar de precárias, serviram para, durante muito tempo, mitigar a angústia resultante da consciência da caducidade humana. E mitigaram porque, de uma forma ou outra, focalizaram o mal numa perspectiva optimista, considerando-o condição imprescindível para atingir o bem. É claro que esta dialéctica, obra de Deus e/ou do devir histórico, conjura-se no plano da abstracção, pelo que, paradoxalmente, exige uma boa dose de fé ou de racionalidade para poder servir de lenitivo à dor que o mal sempre acarreta. É este, de facto, o cerne da questão: acreditar que o mal tem sentido, atribuindo-lhe o condão de gerar o bem a longo prazo. E aqui "acreditar" significa mesmo "acreditar", o que, nos dias de hoje, constitui um verdadeiro desafio dado o pragmatismo que define a actualidade. A contemporaneidade, na verdade, abomina o pensamento. Já não embarca em teorias teológicas ou filosóficas quando o sofrimento lhe bate à porta. Não se satisfaz com construções abstractas que não respondem às suas necessidades imediatas. É-lhe, deste modo, cada vez mais difícil reconciliar-se com a vida e dar-lhe sentido num mundo onde, em cada esquina, o mal se reinventa nas mais diversas formas. Sim, porque o mal não pressupõe apenas o terramoto, o tsunami, a intempérie, o nuclear, a violência, a doença, a fome, a morte. Pressupõe também o comezinho do dia-a-dia construído a partir de decisões que geram pobreza, desemprego, exploração, humilhação... Pressupõe a angústia de quem não consegue pagar a educação dos filhos, a impotência de quem se esvai em contas por pagar, a incerteza de quem não sabe até quando vai conseguir aguentar a pressão… É, por isso, pela singularidade desta época, que se exigem outras respostas para a questão do mal. Respostas que têm de ser encontradas no plano da imanência e que, assim sendo, passam forçosamente pela humanização dos sistemas numa lógica de inter-ajuda e não, como acontece, de números e de rentabilidade. É preciso ouvir, ou melhor, escutar o outro, as necessidades do outro, os problemas do outro, o sofrimento do outro, as sugestões do outro. Na hora da tomada de decisões, quer na esfera privada, quer na esfera pública, a dialéctica que transforma o mal em bem não pode ser uma estratégia. Porque, simplesmente, não há tempo para essa metamorfose.

Eker Sommer