
Se o governo cair, como tudo indica, teremos uma Primavera penosa, que nos sairá cara Hoje é o dia que toda a oposição na Assembleia da República surge apostada em repudiar o obstinado PEC IV. Em provocar o adiamento das soluções para problemas que se tendem a agravar, em empurrar o governo para a única saída possível - a porta pequena do Palácio de São Bento - e em cobrar a factura pela ousadia do primeiro-ministro, que atropelou o Parlamento no 'sprint' final para mostrar serviço a Bruxelas com quem selou as medidas de austeridade. O gesto de José Sócrates foi, além de imprudente e infantil, despristigiante para o nosso país e uma ofensa à sua soberania. Depois disso, de que valem os apelos ao diálogo e ao consenso lançados pelo presidente do Eurogrupo, Jean Claude Juncker? Ou vir o governo dizer que afinal está disponível para negociar as medidas de austeridade quando todo o pacote já tinha o carimbo da chanceler alemã e o seu conteúdo era inalterável? Sócrates arriscou e instigou a vontade de praticamente todos detonarem, com um simples estalar de dedos, o seu governo minoritário. Mas a situação do nosso país é tão grave que as razões não se podem cinjir às motivações políticas. Porque o que está em causa, é o futuro da vida dos portugueses, muitas delas presas por um fio às decisões que hoje forem tomadas. Como tal, seria importante que o fundamento de tudo isto não se resumisse a uma questão de estratégia política-partidária. E infelizmente, vê-se tanta falta de vontade em negociar as soluções e procurar pontos de consenso e um imenso empenho em distanciar-se para lucrar com os problemas, em ganhar algo com umas eleições antecipadas, sustentadas em sondagens secretas e em manobras de bastidores tendo em vista eventuais coligações pós-eleitorais. As réstias de lucidez neste obscurantismo céptico surgem em exortações como a de Jorge Sampaio, que pediu aos “agentes políticos” para que sejam capazes de travar o país de se precipitar numa “situação de total imprevisibilidade”, ou ainda no “apelo angustiado” lançado por Mário Soares ao actual Presidente da República - “não se pode assim permitir, sem que se oiça a sua voz, que os partidos reclamem insensatamente eleições, que paralisarão, nos próximos dois meses cruciais, a vida nacional, em perigo eminente de bancarrota”. As vozes dos ex-presidentes da República, por um lado, parecem estar condenadas à inconsequência, longe de demover o vedetismo de outros protagonistas que procuram inscrever o seu nome, perante a dúvida, para o bem e para o mal, na história da política portuguesa. Por outro, revelam uma tentativa derradeira para despertar a consciência da estátua de Belém, quando Cavaco Silva for chamado a viabilizar a demissão do Governo e a dissolução da Assembleia da República. Se o governo cair, como tudo indica, teremos uma Primavera penosa, porque nos vai sair cara. Ficaremos dois meses e meio irremediavelmente estáticos a ver o país estacionado a afundar-se num pântano de areias cada vez mais movediças e agitadas por disputas de poder. O que os portugueses mais dispensavam agora era ter de ouvir promessas em cinco versões e, no fim, pagar a factura de festas de uma campanha que nunca pediram. E enquanto nos forem ‘comendo’ lá fora, com os juros da dívida pública a atingirem novos máximos, por cá os sinos dobram pelo futuro, em marcha fúnebre. Oferecem-nos um par de meses de promessas, depois apresentam-nos a conta inflaccionada e um pacote de austeridade com um outro azedume.
Se o governo cair, como tudo indica, teremos uma Primavera penosa, que nos sairá cara
Hoje é o dia que toda a oposição na Assembleia da República surge apostada em repudiar o obstinado PEC IV. Em provocar o adiamento das soluções para problemas que se tendem a agravar, em empurrar o governo para a única saída possível - a porta pequena do Palácio de São Bento - e em cobrar a factura pela ousadia do primeiro-ministro, que atropelou o Parlamento no 'sprint' final para mostrar serviço a Bruxelas com quem selou as medidas de austeridade.
O gesto de José Sócrates foi, além de imprudente e infantil, despristigiante para o nosso país e uma ofensa à sua soberania. Depois disso, de que valem os apelos ao diálogo e ao consenso lançados pelo presidente do Eurogrupo, Jean Claude Juncker? Ou vir o governo dizer que afinal está disponível para negociar as medidas de austeridade quando todo o pacote já tinha o carimbo da chanceler alemã e o seu conteúdo era inalterável? Sócrates arriscou e instigou a vontade de praticamente todos detonarem, com um simples estalar de dedos, o seu governo minoritário.
Mas a situação do nosso país é tão grave que as razões não se podem cinjir às motivações políticas. Porque o que está em causa, é o futuro da vida dos portugueses, muitas delas presas por um fio às decisões que hoje forem tomadas. Como tal, seria importante que o fundamento de tudo isto não se resumisse a uma questão de estratégia política-partidária. E infelizmente, vê-se tanta falta de vontade em negociar as soluções e procurar pontos de consenso e um imenso empenho em distanciar-se para lucrar com os problemas, em ganhar algo com umas eleições antecipadas, sustentadas em sondagens secretas e em manobras de bastidores tendo em vista eventuais coligações pós-eleitorais.
As réstias de lucidez neste obscurantismo céptico surgem em exortações como a de Jorge Sampaio, que pediu aos “agentes políticos” para que sejam capazes de travar o país de se precipitar numa “situação de total imprevisibilidade”, ou ainda no “apelo angustiado” lançado por Mário Soares ao actual Presidente da República - “não se pode assim permitir, sem que se oiça a sua voz, que os partidos reclamem insensatamente eleições, que paralisarão, nos próximos dois meses cruciais, a vida nacional, em perigo eminente de bancarrota”. As vozes dos ex-presidentes da República, por um lado, parecem estar condenadas à inconsequência, longe de demover o vedetismo de outros protagonistas que procuram inscrever o seu nome, perante a dúvida, para o bem e para o mal, na história da política portuguesa. Por outro, revelam uma tentativa derradeira para despertar a consciência da estátua de Belém, quando Cavaco Silva for chamado a viabilizar a demissão do Governo e a dissolução da Assembleia da República.
Se o governo cair, como tudo indica, teremos uma Primavera penosa, porque nos vai sair cara. Ficaremos dois meses e meio irremediavelmente estáticos a ver o país estacionado a afundar-se num pântano de areias cada vez mais movediças e agitadas por disputas de poder. O que os portugueses mais dispensavam agora era ter de ouvir promessas em cinco versões e, no fim, pagar a factura de festas de uma campanha que nunca pediram. E enquanto nos forem ‘comendo’ lá fora, com os juros da dívida pública a atingirem novos máximos, por cá os sinos dobram pelo futuro, em marcha fúnebre. Oferecem-nos um par de meses de promessas, depois apresentam-nos a conta inflaccionada e um pacote de austeridade com um outro azedume.