Fátima Nascimento Há muito que repito a ideia de que brincar não é aleijar. Mas parece inútil o conselho. Durante a minha vida, e falo desde a infância que tenho imagens de violência logo desculpadas pelos pais: são crianças não se pode ligar. Mas é precisamente por serem crianças que se deve ligar. E o que é mais estranho, é ver alguns alunos a divertirem-se maltratando outros e completamente indiferentes às consequências. Depois, a pergunta que logo se lhe segue, é sempre a mesma curiosidade de saber quem começou. E com esta pergunta procura-se um possível acusador para colocar no castigo e está a questão resolvida. Até darem conta de outro problema idêntico que será solucionado da mesma forma. Assim, não vamos a lado nenhum. O pior de tudo é que esta perversidade, disfarçada de brincadeira, tem tendência para continuar. Até quando? Já não me refiro à questão do bullying, que é notório nas escolas desde que me lembro. Mas toda a gente ou não ligava ou tratava de lidar com o assunto com o mesmo tipo de violência. Depois, a culpa é sempre do outro. Vi amigos meus de infância a serem espancados por outros por questões mínimas. E, para o cúmulo, a vítima queixava-se ao irmão mais velho que apanhava o agressor e o desancava sem piedade… Ora esta última vítima tem um irmão mais velho que o do anterior ou até o pai que vai esperar o agressor para o encher de pancada. E, muitas vezes, bem apuradas as razões já nem os primeiros actores se lembram da causa da desavença. E tudo começa com as chamadas brincadeiras parvas que podem nem ser mal intencionadas. A questão é que por brincar entende-se a actividade onde todos se sentem bem partilhando o mesmo espaço. Brincar é respeitar o próximo. E se ele não gosta daquela brincadeira sentindo-se incómodo ou até ameaçado, deverão os outros acalmá-lo e deixá-lo ir embora. Maldade é todo o contrário do que acabo de afirmar. O que pretendemos para os nossos filhos: uma sociedade/escola segura onde todos se sintam bem ou continuamos com esta situação indefinidamente só porque já encontrámos a sociedade assim? Esta é das respostas mais estúpidas que já vi pronunciar. Podemos sempre que começar pelos mais pequenos tentando responsabilizar os mais velhos, consciencializando-os e levá-los a pensar em que tipo de sociedade gostariam de vier. Todos sem excepção. Quem sabe se assim, muitas vezes, conseguimos atenuar a educação defeituosa praticada em casa. Eu já ouvi um pai dizer para a filha "Faz tu isso, como és pequena ninguém liga. Agora se for é diferente". Se este exemplo não disser muito não sei que mais diga…