A 25 de Abril de 1974 tinha oito anos e, como todas as crianças que viveram a Revolução dos Cravos, rapidamente mudei as brincadeiras com a mudança que alegremente varreu o País. Passámos de brincar 'à venda' - mercearia, para quem já não se lembra - a brincar aos partidos e às eleições. Coleccionámos aqueles papelinhos coloridos que eram despejados dos carros de campanha e ficavam presos ao chão quando chovia, roubámos cartazes e improvisámos boletins de voto.Grandes brincadeiras, muita discussão, debates acalorados e algumas brigas. Bons tempos.

O problema, parece, é que alguns teimam em ser sempre meninos, regressar à infância e recusar-se a crescer. Os problemas seriam mínimos se se limitassem a brincar com carrinhos e bonecas. Mas não é tão simples e o resultado é complicado, mesmo que se trate de mais um jogo das eleições.

Amanhã, ao que tudo indica, o Governo da República cai - pode haver um milagre mas é pouco provável - e vamos para eleições antecipadas, a realizar antes do Verão. Mais uns meses de impasse, mais uns milhões de despesas, mais uns pontos nos juros da dívida soberana e, infelizmente, o recurso à ajuda externa com tudo o que isso implica de perda de soberania, de direitos laborais, de respeito, e agravamento das medidas de austeridade.

É certo que há uns inconscientes que até dizem que será bom apanhar com o FMI - ainda não deveriam ter nascido em 1983 -, mas a verdade é que esta crise política pode conduzir a um desastre muito maior do que aquele que já temos. A irresponsabilidade dos dois maiores partidos portugueses parece sobrepor-se a tudo isso.

Também é verdade que Governo da República se colocou a jeito para apanhar a pancada e até parece desejá-la mas, do lado do PSD, é evidente a gula com que olham para as sondagens e para a possibilidade de regressar ao poder. Os outros, os mais pequenos, aspiram a ser um pouco menos insignificantes no palco das decisões. Com tudo isso, vamos brincar às eleições, colar cartazes, imprimir manifestos, fazer tempos de antena e prometer o paraíso no meio do inferno. A conta vem depois.