A língua ou código em que nos exprimimos é sempre um processo dinâmico que se vai adaptando ao contexto, acompanhando os falares dos povos através de gerações, o que não quer de modo algum dizer que estejamos perante a adulteração da sua significância. Que a ortografia não seja mais do que uma pequena parte da língua, estamos todos de acordo e é óbvio que pretender unificar a língua com um novo acordo ortográfico não passará de um artificialismo legislativo com claros resquícios de imposição, e isso claramente divide opiniões. As diferenças entre o português de Portugal e do Brasil são essencialmente gramaticais e lexicais, nunca ortográficas. O mesmo se coloca em relação às variantes do português falado em África e Timor Leste. Querer unificar a ortografia será como unificar as cores das paisagens dos diferentes lugares onde se fala o português. Mesmo que a unificação da língua ajudasse a circular os livros e facilitasse a sua leitura, o acordo ortográfico não unificaria a língua. A falta de cooperação entre academias e a produção intelectual não promovem esse objectivo, pois o conhecimento continua a não ser escrito originariamente em português. Formatar identidades e harmonia de sentires com a diversidade linguística dos falantes do português, não pode deixar de dividir opiniões.
Abaixo as alheiras de Vale de Porca, o queijo de Ormandiz, a chouriça de Vale dos Caídos, vamos dizer aos falantes da nossa língua, como se fala em Português e acabar com este regabofe da diversidade linguística, onde já se viu.
É hora da subida ao pelourinho, a tradicional oralidade e os falares dos povos vão à forca em praça pública, e como se no espernear pelo aperto da goela não haja tempo para esperar pela vítima seguinte, lá vai a enterrar ainda viva. Não se iludam, se a língua traduz a oralidade dos povos, o novo acordo ortográfico traduz a força hegemónica do Brasil no universo lusófono.
João Fernando Pereira - Lic. Ciências da Cultura