Já nem me recordo qual foi o colega que um dia me contou uma história cuja veracidade nunca confirmei, mas que lembro frequentemente. Segundo essa história, um jornalista teria entrevistado a criada do Eça de Queiroz após a morte do escritor e ela ao expressar a sua opinião sobre o patrão disse: " Era uma óptima pessoa, só que era muito mandrião, pois acordava a desoras, passava o dia a escrever e a conversar". Segundo a criada o Eça era alguém que não se podia considerar muito produtivo.
Esta história vem-me à memória sempre que ouço críticas a intelectuais simplesmente pelo facto de eles "não trabalharem" tantas horas como outros trabalhadores. Esta crítica é comum entre colegas na Academia que acusam, por exemplo, os Professores da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa de darem poucas horas de aula, esquecendo por completo que nas horas em que eles não estão em aula encontram-se a fazer investigação cujos resultados são reconhecidos internacionalmente.
Seguindo o exemplo da Faculdade de Economia da Universidade Nova muitos departamentos de Economia e Gestão fizeram como eles, racionalizaram a oferta educativa e o período de leccionação dos seus cursos de modo a que os seus Professores tivessem tempo para se dedicarem à investigação. Os resultados estão à vista, estes departamentos lideram a investigação em Economia em Portugal segundo ordenações internacionalmente reconhecidas. Tal é o caso da Universidade da Madeira que, como o Diário de Notícias noticiou no dia 12 passado, lidera a investigação em Economia, quando o indicador utilizado são as citações por autor em revistas de referências na área (as do ISI Web of Knowledge).
Só quem nunca fez investigação e a publicou em revistas de referência é que desconhece o árduo trabalho que é o próprio processo de descoberta, de síntese dos resultados, de escrita dos artigos, da sua submissão e da sua revisão para no fim serem publicados. Eu que conheço bem o processo penso que os Professores que além de leccionarem publicam trabalham muito mais dos que os que apenas "dão" muitas aulas, sem que a investigação própria ilumine a sua prática lectiva.
As "criadas" do Eça na certeza que é própria da ignorância não teriam dúvidas em afirmar que os Professores que trabalham mais são os que "dão" muitas aulas, pois tantas são as horas que passam frente aos alunos. Eles, tal como elas, podem mostrar as "mãos calejadas" como prova do seu trabalho.
Eu que tive a sorte de ser aluno de dois Professores que ganharam o prémio Nobel de Economia e de muitos outros grandes investigadores, nunca trocaria as poucas horas de aulas que tive com eles e o muito que com eles aprendi por muitas horas sentado numa aula com alguém que se limita a repetir o que outros descobriram. Na verdade existe uma grande diferença entre ser produtivo e ser reprodutivo intelectualmente. Não atender a este diferença conduz a equívocos ao ajuizar a produtividade intelectual.
Pedro Telhado Pereira - Professor Catedrático