No momento actual em que vivemos, todas as instituições sofreram e sofrem profundas alterações. A família, apesar de ter sofrido muitas transformações, continua a ter um papel central na sociedade, é o que consideram os cidadãos europeus, que, num recente inquérito, afirmam valorizar mais a família do que os amigos, o lazer, o trabalho. Vem esta reflexão a propósito da figura paternal celebrada no Dia do PAI. Continuo a achar fascinante o dia do Pai ser celebrado, no contexto da Igreja Católica, no dia dedicado a São José que não é pai biológico, mas pai adoptivo. Esta simbologia, intencional ou não, é bonita, quer dizer que pode haver mais de um pai e que não basta ser progenitor para ser pai. Este exemplo aponta, desde logo, para uma figura paternal que é algo mais que um registo, um vínculo procriador ou uma imagem de sociedade, mas sim um sentimento de união, uma experiência dinâmica relacional, uma escolha amorosa. Perspectiva a paternidade num sentido mais actual e afasta-se da imagem do "pai tradicional". Sabemos que ao longo do tempo e durante muito tempo o pai, de facto, esteve ausente da vida da esmagadora maioria das crianças. Garantia o sustento mais do que participava na educação. Nestas circunstâncias, os pais tornaram-se significativamente ausentes das histórias de vidas de muitas das crianças. E a sua presença nessas histórias é descrita, muitas vezes, mais ao nível da apresentação do seu estatuto do que de um papel. Hoje, os pais não são assim, pelo menos a maioria. Os pais mudaram muito, conjuntamente com as próprias famílias. Mudaram porque as mulheres passaram a ter menos filhos (pela redução da mortalidade infantil), a ter outra relação com a maternidade (controlo da natalidade), a ser escolarizadas, a entrar em força no mundo do trabalho, as escolas generalizaram-se, outras instituições colaboram na socialização das crianças e assim, a família viveu uma profunda a magnífica revolução, em que as mulheres deixaram de ter apenas uma papel passivo única e exclusivamente dedicado à maternidade e o pai deixou de ser um intruso e passou a ser um pai de verdade. Porém, é preciso continuar a "libertação" da imagem do pai tradicional no sentido do pai ser quem, no que se refere especialmente às chamadas tarefas domésticas, se limita a obedecer às indicações das mães e a pedir autorização para fazer algo. Ainda falta um passo quer no sentido das próprias mulheres aceitarem uma verdadeira paridade quer dos homens passarem a reclamar-se de uma outra forma (por exemplo: faz algum sentido hoje, que um homem que é administrador de uma empresa e que gere situações de grande complexidade não saiba mudar uma fralda ou fritar um ovo). Ainda há em muitas famílias uma grande clivagem de papéis entre a mãe e o pai. O pai não pode ser uma espécie de adereço ou de bem de segunda necessidade. Mas, pais que se baldam para as suas responsabilidades não são pais que tenham legitimidade para reivindicar direitos. Só quem tem direitos conquistados pelo assumir das responsabilidades é que tem direito a ter prendas neste dia. Nos actuais e agitados dias do mundo actual, precisamos mesmo de pais de verdade.

Marco Gomes