"Os deuses actuam como se não existissem, e assim não existem, de facto, com extrema eficácia". A frase está num dos últimos livros de Gonçalo M. Tavares. Uma obra que revisita a epopeia de Camões, mas sem heróis, como 'exige' o tempo presente.

O que nos interpela nesta frase e no que ela traduz sobre a actualidade, não é apenas essa inexistência divina, o que nos interpela são outras inexistências que nos assaltam e preocupam. A quase inexistência de um país e de um futuro, por exemplo.

À semelhança dos deuses, a sensação que fica é a de que também os políticos andam a actuar como se não existissem. Ou, pior do que isso, como se não existisse país, e como se no país não existissem pessoas.

Só que a inexistência dos políticos não se tem mostrado eficaz. Porque ao actuarem como se não existissem, adiam, criam esse limbo, essa inexistência em que estamos mergulhados há demasiado tempo e que nos está a sair demasiado cara. Os políticos actuam como se não existissem realmente, como se não tivesse responsabilidades, como se não fossem pagos para existirem com eficácia.

Que de outra forma podemos encarar o jogo político a que assistimos em lugar desconfortável e não privilegiado. O constante empurrar de responsabilidades entre oposição e governo, sem que ninguém se mostre realmente empenhado em resolver o que quer que seja. Ou, pelo menos, em resolver algo mais do que os interesses particulares, o 'timing' político, a carreira e outras coisas que tais.

Passos Coelho não avança porque não lhe interesse, Sócrates ameaça com o FMI e, entretanto, vai praticando medidas de austeridade em avulso numa catadupa de sacrifícios sem fim à vista e, sobretudo, sem resultados práticos visíveis. O país real, que não é o da estatística governamental, não vive dos números que o primeiro ministro apresenta à chanceler alemã. O país real precisa mais do que propaganda, mais do que palavras. O país real precisa de acreditar, precisa de sentir que algo pode mudar. Verbos que não rimam com a inexistência a que estamos condenados e que é a única a se conjugar de forma muito eficaz.

Voltando a Gonçalo M. Tavares e ao mesmo livro de uma epopeia contemporânea, o que se lamenta é que os políticos não sejam esse homens "que antes agiam ao nível do mar", e sejam antes homens que agem "acima ou abaixo do nível dos olhos". Ou, pior do que isso, homens que agem, demasiadas vezes, ao redor do umbigo