Já fiz parte de um clube clandestino (quem nunca fez?) que se reunia numa cave escura e fumarenta nas noites de terças-feiras para partilhar paixões. Lugares, livros, músicas, seres vivos ou não vivos. Lembro-me de ler excertos do "Passos em Volta" (quantas vezes terei lido o "Passos em Volta"?) e de "vender" Herberto como o melhor poeta de todos os tempos. "Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso." Olhando para trás, não percebo como não reclamei uma sessão para a anona. É quase ofensivo não ter dedicado uma noite inteirinha a esse fruto escamoso, de casca grossa. Sim, há sabores que nos explodem na boca e nos transportam, sem cinto de segurança, para o paraíso. Não me venham com anonas do Peru, de Nova Granada ou das Canárias. Mal as primeiras anonas lá de casa ficam no ponto, o meu pai faz-se à árvore, conduz até à vila, caminha até aos correios, mete umas quantas anonas numa caixa e manda-as para o Porto. Que loucura, dirão os incapazes de apreciar devidamente aquela polpa branca, doce, perfumada. Nada disso. Uma anona não é uma anona. Uma anona é um amor reservado que se revela quando um pai procura na árvore as maiores frutas, as mais doces, as que nasceram viradas para o Sol, e as remete sem dizer que bem mais barato era ir ao supermercado comprá-las. Uma anona é um tesouro que se partilha com quem bem se quer, por vezes, como uma dose de esperança. Recebi esta semana o último carregamento de anonas e parte dele foi direitinho para a minha amiga Teresa. Corre que a anona é milhares de vezes mais eficaz do que a quimioterapia. Desde que leu isso, a minha amiga come uma por dia. O dedicado marido descasca-a e tira-lhe as sementes antes de lha pôr à frente para que ela a coma como uma senhora, que é, e não "à selvagem", como eu, que a parto ao meio e a como à colherada, como se fosse iogurte. Se tivesse de fazer um top +, a anona vinha a seguir à floresta laurissilva e às deambulações do Herberto Helder de Oliveira. Há que colocá-la, de uma vez por todas, no lugar que merece. Sei lá, usá-la para fazer (imprudentes?) declarações de amor: "Gosto mais de ti do que de anonas."
Ana Cristina Pereira