
Vamos lá tentar não ‘aparvalhar’ mais ainda o hino e o fado de Deolinda. Vem isto a propósito da necessidade que o grupo sentiu em desvincular-se de qualquer rotulagem política-partidária, dado o apetite voraz que este país tem para abocanhar todo o manifesto liberal seja ele literário, musical ou cívico. Neste caso, viu-se um pouco de tudo: tentativas para se apoderar da bandeira que representa o tema para os jovens, para ridicularizar o fenómeno, para adulterar o sentido da mensagem e para catalogar a música como sendo de esquerda ou de direita.
Há um mês, os Deolinda confessavam que jamais imaginariam a dimensão que a letra poderia tomar aquando da apresentação da nova canção ‘Parva que sou’, nos Coliseus do Porto e de Lisboa. “Foi com grande surpresa e emoção que assistimos a uma reacção tão intensa e espontânea por parte das pessoas que estavam a ouvir uma música inédita”, desabafou o quarteto em comunicado. “Verso a verso, fomos sentindo o público a apropriar-se da canção e a tomá-la como sua. Foram quatro momentos especiais e porventura únicos de comunhão entre nós e o público.”. E assim foi.
O tema foi uma pedrada no charco do marasmo. Espontâneamente começou a ganhar vida além dos palcos, correndo as redes sociais e assumindo a universalidade desta forma de arte feita de notas musicais, transportando uma essência que muita falta faz à cidadania - crítica, inconformismo, reacção, intervenção. Porque música não é só entretenimento ou animação.
Anteontem, Ana Bacalhau e companhia acharam que deveriam esclarecer como nasceu ‘Parva que sou’. Pelos vistos, longe estaria o quarteto inspirado no fado e nas origens tradicionais, em imaginar que aquele “que parvo que eu sou!” que Luís José Martins soltava sempre que falhava um acorde da guitarra clássica se transformaria num fenómeno contagiante. Que seria a vitamina antidepressiva dos jovens na luta diária contra a crise que herdaram e, mais do que isso, num balde de espasmos para os recalcamentos dos 'Velhos do Restelo' que, no banho-maria da hipnose dos versos da liberdade de Zeca Afonso ou da senha para a revolução "E depois do adeus" de Paulo de Carvalho, crêem estar a viver na democracia imaculada, fértil em novas oportunidades para todos. Já não bastasse a guerra de classes, o que mais faltava a esta conjuntura era acentuar os conflitos de gerações.
Razão tinha Albert Einstein quando disse que em momentos de crise, mais vale a imaginação que o conhecimento. Que o digam perto de 50 mil jovens licenciados sem trabalho ou os 200 mil com idade inferior a 34 anos e que representam 37% dos desempregados inscritos. Imagine começar tudo de novo calçando as velhas All Star. Não ter trabalho ou trabalhar a recibos verdes, com contratos sem vínculo ou a termo, fazer parte da mão-de-obra reciclável, constatar que os sindicatos não querem nada com desempregados que nunca descontaram, perceber que a carreira contributiva por mais que se trabalhe não garante a subsistência na velhice ou que os bancos só querem negócios com os nossos pais e exigem a penhora da casa da sogra. 'Parva que sou' teve, entre outros tantos, o mérito de propor, mesmo a contra-gosto, este exercício: vestir a pele.