Alberto João Jardim festejou anteontem os seus 33 anos como presidente do Governo Regional da Madeira. É candidato a mais quatro nas eleições de Outubro. Como vai ser eleito, se ficar até ao fim, deixará o Governo 37 anos depois, o que se duvida. Outros exemplos de longevidade se seguem. Veja-se o caso de Rui Marote que foi anteontem reeleito, em lista única, para a presidência da Associação de Futebol da Madeira. Ou Brazão de Castro, que é secretário do Governo Regional da Madeira desde 1984, há 27 anos. Mas há mais: Diamantino Alturas é presidente do Sindicato da Construção Civil há cerca de 30 anos. Juan Carvalho tomou posse a passada semana como presidente do Sindicato dos Enfermeiros, cargo que ocupa há vários anos. Ricardo Freiras é líder regional do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública há seguramente uma dúzia de anos. Correia de Jesus e Guilherme Silva são deputados na Assembleia da República há mais de 20 anos. Jaime Ramos é deputado na Assembleia Legislativa da Madeira desde os anos 70. Carlos Pereira é presidente do Marítimo há praticamente 15 anos. Rui Alves leva quase outros tantos na presidência do Nacional. Miguel Mendonça é presidente da Assembleia Legislativa da Madeira há mais de uma dúzia de anos. Miguel de Sousa é seu vice desde a mesma altura. Emanuel Jardim Fernandes foi tantas vezes reeleito líder do PS que lhe deram o título de presidente honorário, depois de tantas derrotas. Estes são apenas alguns exemplos que ajudam a perceber o estado em que estamos. E o nosso estado é simples: quem está continua, que está fora ‘racha lenha’. A vida toda. E o curioso é que nenhum dos casos acima citados, que estão longe de ser casos únicos, se admite agarrado ao lugar. Nada disso, todos eles parecem acreditar que as instituições que lideram se desmoronam sem a sua presença. Que são insubstituíveis e que prestam um serviço único à Região. Mais estranho ainda é que nenhum admite sequer abrir vaga. É claro que não se vai por um pedreiro num conselho de administração (no Porto Moniz até puseram...) mas estou absolutamente convencido que, por exemplo, dentro do PSD, há gente com maiores capacidades do que Jardim para ocupar agora a presidência. Ou que entre os quadros da Horários do Funchal há profissionais mais habilitados que o reformado Homem Costa. Também não tenho dúvidas que no mesmo PSD há deputados capacitados para a liderança do grupo ou para representar o partido em Lisboa e para liderar a pasta do ‘Desemprego’ no Governo Regional. E de certeza absoluta que há, no universo maritimista, gente com melhor preparação para substituir Carlos Pereira. No Nacional já não tenho tanta certeza... E há, acredito eu, pessoas disponíveis, por vezes à espera de uma aberta, de uma simples oportunidade para mostrar o que valem no Sindicato dos Enfermeiros ou da Construção Civil ou no da Administração Local ou qualquer outra instituição. Mas os lugares de topo estão fechados. Tapados por pessoas com tanta boa vontade como gosto pelo quentinho das cadeiras do poder, mesmo que seja um pequeno poder. Mesmo que seja a confraria, o grupo de escuteiros, a Casa do Povo e outras instituições de menor reconhecimento público. O crónico conformismo madeirense não é o único culpado por esta situação. Uma certa malandrince e a falta de objectivos também ajudam. É verdade que em várias instituições de pequenos poderes são sempre os mesmos porque mais ninguém quer ter o trabalho de organizar eventos, ouvir reclamações, trabalhar sem dinheiro e com visibilidade diminuta. É verdade, sim senhor! Mas, então entre os que militam na Oposição, esse ‘preguiça’ chega a ser estonteante. Brigam ferozmente para terem um lugar na lista de deputados, mas não se interessem em começar por baixo. Será que no PS, no PCP, no CDS, no BE, no MPT, ou até no novo PTP não há ninguém que seja pai, católico, que tenha apetência por actividades públicas? Certamente que há! Então, por que razão não começam por se candidatar à Associação de Pais da escola dos seus filhos, à confraria da sua paróquia, à Casa do Povo da sua localidade? Já sei o que estão a pensar: que é difícil, que o PSD não deixa, que tem tudo minado e outras coisas do género. Pois é claro que tem. Mas também é claro que na Oposição, talvez por falta de gente e de recursos, poucos são aqueles que se metem em trabalhos voluntários mas que garantem visibilidade e, melhor que isso, permitem mostrar que são realmente capazes de fazer melhor. Um exemplo apenas: alguém sabe quem era o anterior presidente da Escola Gonçalves Zarco? Eu não sei. Mas sei que quem lá está agora é um dirigente socialista que, por ser vereador no Funchal e vice-presidente do PS, está ‘obrigado’ a fazer melhor. E, com isso, no mínimo, ganha aquela comunidade escolar e o PS. E se falhar, avança outro. De certeza que Rui Caetano não ficará na direcção da escola por 20 ou 30 anos. Outro exemplo, na área do PSD: a vice-presidência do Governo foi criticada quando Cunha e Silva se rodeou de jovens desconhecidos. Um deles é hoje eurodeputado e tem de mostrar o que vale. É também por aí que se faz a renovação e se dá espaço a outros num importante exercício de alternância de pessoas. Uma nota final para sublinhar que nada me move pessoalmente contra os nomes acima citados. Rigorosamente nada, acreditem. São simplesmente casos de que me lembrei quando vi na capa do meu jornal o assustador número de 17.203 desempregados na Madeira. E voltei a pensar que, nesta sociedade, enquanto uns serão apenas 'lagartixas', outros serão ‘lapas’ toda a vida. Como está na moda, associo-me ao grito dos ‘Homens da Luta’: “E o povo, pá?!”