O Santa Maria estava cheio e os tipos instalados no balcão divertiam-se alegremente a atirar "tramoços" prós gajos que estavam em baixo e que a cada tiro certeiro ameaçavam o atirador com um enxerto de porrada pós-sessão. "Só nã levas já c'eu paguei bilhete, mas tás do olho". A guerra, violenta como todas as guerras, terminou quando as luzes se apagaram e o leão da Metro encheu o ecrã com um rugido imperial, capaz de travar qualquer míssil temperado com alho ainda em voo. Ao meu lado, um dos meus amigos deu-me uma cotovelada e, meio a medo, sussurrou: - "acho que já vi esta m…!", desconhecendo que o leão da Metro não fazia parte do filme, não lutava contra o Rocky e era uma figura quase omnipresente do cinema daquele tempo. Eu, puto armado em sabedor, dei uma gargalhada que abafou as primeiras notas do "Eye of the Tiger" e espalhei a história logo que Deus me deixou. Hoje volto a fazê-lo porque cada vez que vou ao cinema nesta santa terra lembro-me da frase do meu amigo de infância: - "acho que já vi esta m…" - tal a idiotice mais que perfeita em que se converteu a programação entre nós. Há anos que os senhores que gerem as salas de cá nos impingem comédias românticas, BD, comédias românticas, acção e, como é óbvio, comédias românticas, umas atrás das outras, como se fossemos todos imbecis. Nem as salas cada vez mais vazias demovem as amáveis criaturas do caminho que decidiram trilhar e que não passa por pastos decentes, ou seja, por filmes aceitáveis. Mesmo quando decidem ser gentis os rapazes (ou raparigas, porque felizmente não os conheço), apresentam-nos boas obras com quase tantas semanas de atraso como os pontos que separam Porto e Benfica. Eu, por não gostar de repetir até à exaustão "acho que já vi esta m…!", deixei de ir ao cinema e já agora, se me permitirem, sugiro que façamos um boicote de um mês às salas, obrigando as simpáticas criaturas a pensar na vida.
Gonçalo Santos, Gestor de projectos