OS FACTOS: a) Temos um depósito de inertes de grandes dimensões na baía do Funchal; b) Algo tem de ser feito. Não pode ficar como está e este é o único ponto consensual; c) Qualquer solução, seja repor tudo como estava ou um projecto de aproveitamento irá implicar custos significativos, certo que, uma mais que outra; d) Qualquer das soluções terá impactos económicos, mas ainda não quantificados e percebidos. Também aqui, uma mais que outra; e) Extremaram-se posições entre o sim e o não, partidarizando-se o debate entre o partido do sim e o do não. O que parece interessar é defender posições e não o debate de ideias; f) Instalou-se o fundamentalismo cego, avesso à promoção de ideias e da racionalidade criativa; g) Instalou-se a cultura das certezas absolutas, num mundo de incertezas - falta de humildade; h) Provou-se a dificuldade de debatermos, entre pares, ideias de forma construtiva, sem medos e sempre no respeito pela perspectiva diferente da nossa, usando-a como ponto de partida da evolução das nossas próprias ideias; i) A gestão, por quem de direito, do debate saudável alicerçado em informação clara e transparente, pecou por defeito; j) Antecedentes de erros cometidos na orla costeira que tiveram na sua génese uma cultura de certezas, de falta de debate e de ausência de estudos técnicos sérios, que geraram em todos nós, legítimos receios em relação às soluções agora apresentadas. A MINHA POSIÇÃO? Intuitivamente e sem ser racional (o que numa fase inicial de reflexão pode ser muito útil) caio para o lado do aproveitamento do depósito de inertes no sentido da realização de um projecto que beneficie a baía do Funchal. Mas tenho de admitir que não tenho certezas, tenho inúmeras interrogações que me levam a não ter uma opinião formada com segurança. Assumo claramente as minhas limitações sobre a matéria! Antes de tudo quero saber muito mais para poder formar uma opinião responsável. Na realidade, a única certeza que tenho nesta fase, é que no cenário de avançar com um projecto para o local, nenhuma construção em altura - nem um piso que seja - deverá ser permitida. Por outro lado e, na agitação das minhas incertezas, não posso deixar de admitir que sempre gostei da praia que lá estava, que tenho receio dos impactos ambientais e visuais de uma obra ali e, não menos importante, da segurança do escoamento das águas da Av. do Mar, das ribeiras e assoreamento do Porto. ENTÃO O QUE FALTA: a) Estudar em relação a cada alternativa, os pontos fortes e fracos, as oportunidades e ameaças nas dimensões: (i) dos custos, (ii) dos impactos económicos, (iii) dos impactos ambientais, (iiii) dos riscos e da segurança, (iiiii) da estética; b) Dar a conhecer o estudo e colocá-lo ao debate público em contexto de sociedade participativa; c) Depois de se chegar a uma conclusão da melhor alternativa, lançar-se um concurso de ideias para a opção seleccionada, seja ela a remoção do aterro, seja o aproveitamento do mesmo; d) Optando-se pelo aproveitamento, devem ser convidados arquitectos de renome regional e nacional de forma a garantir-se uma obra que para além de todos os aspectos já referidos seja uma seja uma peça arquitectónica de referência internacional. Estamos a tratar da zona mais nobre da nossa cidade! Nesta hipótese, a do aproveitamento do depósito de inertes, os interesses das actividades marítimo-turísticos e dos cruzeiros, terão de assumir um papel central, pela sua importância para o turismo e pelo seu forte impacto económico na economia da ilha. É tarde para seguirmos este caminho? Não, nunca é tarde para seguirmos uma via que evite deixar-nos a todos com uma má solução a custar milhões, como temos alguns exemplos por aí que só serviram para alimentar os interesses exclusivos da construção civil em absoluto desrespeito pelos sectores verdadeiramente reprodutivos e por consequência em desrespeito pelos interesses de todos nós. Sim, o maior risco é uma obra projectada à medida desses interesses, em prejuízo de todos os outros! Em suma, estudar as vantagens e desvantagens das duas alternativas em função de estudos técnicos, promover o debate público, fazer opção por uma das vias, lançar concurso de ideias e lançar rapidamente mãos à obra que, manter tudo como está, não só é um risco como é mais uma nódoa negra na já muito degradada imagem do nosso destino turístico, cada vez mais desqualificado.
João Welsh, Delegado Regional APAVT