Por estes dias, a mais velha democracia do Mundo vê o seu gestor principal propor que as decisões e acções politicas sejam ponderadas previamente através da submissão ao "teste da felicidade". Trata-se de, cada ministro inglês, ter que encontrar um modo de testar as decisões politicas (e consequentemente os projectos delas resultantes), numa lógica do tipo: esta decisão ou medida contribui para a felicidade das pessoas?. A proposta não é nova já que há quase, pelo menos, uma década, se procura redefinir as parcelas dos indicadores de desenvolvimento, incluindo, entre elas, critérios orientados para a felicidade dos cidadãos, actuais e futuros. Não havendo ainda consenso, quer sobre a forma quer sobre os conteúdos, a adoptar nessa mudança, não quis na mesma, o Primeiro Ministro Inglês, David Cameron, deixar de insistir junto dos membros do seu governo na necessidade de, nem que seja empiricamente, avaliar as decisões numa lógica do quanto podem contribuir para a felicidade dos destinatários. Não sei como vão satisfazer o pedido mas, vale a pena pensar um pouco sobre o que está subjacente a esta proposta. Desde logo a maturidade colectiva que permite o arrojo de se expor a própria ideia, com os problemas decorrentes da mesma, começando pelos de natureza politica. Depois a confiança e espírito positivo no acreditar que os membros do governo hão-de acatar a proposta e ser suficientemente inovadores, quem sabe se não contribuindo decisivamente para a resolução dos problemas técnicos da elaboração do modelo de renovação e redefinição da avaliação do PIB. Em terceiro lugar, a segurança, no sentido em que a proposta, em si mesma, por mais inexequível que possa parecer, dirige-se às pessoas e não vai ser fustigada por elas. Uma verdadeira cultura de felicidade é o que está em causa. Algo que identifica um colectivo, com os mesmos problemas que a maioria das sociedades enfrenta, mas, que insiste na consistência dos processos e do regime democrático como pilar para a equação dos problemas e a busca das soluções. Uma cultura de infelicidade, que é a que por cá vivemos no presente, não suportaria tal proposta. Não tanto pelo medo de se expor mas, sobretudo pelo chorrilho de questões, temores, anúncios catastrofistas e certezas absolutas dos "génios" que pululam no nosso quotidiano. Na cultura da infelicidade, reina a inveja, o precoce juízo de valor, a capacidade de avaliar seja o que for, desde a semente do girassol até às viagens interplanetárias. A cultura da infelicidade, em nome do direito sagrado de participação, confunde responsabilidade, conhecimento, competência, com juízo de valor, imposição de ideias e argumentação sem propósito. Na cultura da infelicidade impera o ruído e ganha sempre o que fala mais alto, mas, continuamos infelizes. Na cultura da felicidade todos falam e, porque falam, também procuram ouvir, o que, geralmente ajuda a ponderar o juízo. E quando se tem juízo ponderado somos, seguramente, mais felizes.

António Domingos Abreu