Os políticos estão a matar a sua própria classe, desacreditando-a a um nível irreversível. São uma espécie de tia chata que ninguém atura, mas que deixam sentar-se à mesa em dias de festa. Toleram-na de sorriso amarelo e aceitam a sua inconveniência constrangidos.
Só que a classe política não é família dos portugueses e anda a esticar a corda e a paciência. E já ninguém consente. Por isso é que as pessoas estão com pouca vontade de voltar às urnas, porque é, de facto, um enfado que tem um preço pago por todos nós.
O pior é que o cenário de eleições legislativas antecipadas é vendido como a última coca cola no deserto, quando não é verdade. Só se escolhêssemos um novo Governo, que fosse depois uma espécie de D. Sebastião salvador. Não é. A crise está aí, o que precisamos é de um Governo forte capaz de aguentar o embate e de cumprir o que a Alemanha (perdão, a União Europeia) diz. E isso pode muito bem ser conseguido com os actores que representam esta peça dramática no parlamento. O guião nestá escrito.
O povo deve ter sempre a última palavra. É ele quem mais ordena. Mas a verdade é que o povo já pronunciou e para que é que precisamos de baralhar e voltar a dar? Como em todas as peças de teatro há sempre actores suplentes. Nos jogos de futebol há jogadores no banco. Cabe a Cavaco Silva assumir com pulso firme o papel de encenador ou de treinador e dar as directrizes, a táctica.
Situações extraordinárias exigem medidas extraordinárias e o interesse partidário não se deve sobrepor outra e outra vez ao interesse dos portugueses. Até porque corremos o risco de, depois de elegermos Passos Coelho, levarmos quatro anos com o discurso: “A culpa não foi minha, foi do senhor engenheiro”. O que interessa pouco. Em última instância a culpa será de Afonso Henriques que conquistou isto aos mouros. E dos descobridores lusitanos que podiam ter passado ao largo da Madeira e Porto Santo, deixando a descoberta para outros menos à rasca.
O Presidente da República disse que há “limites para os sacrifícios” que se impõem aos portugueses. É bom que se lembre disso e não os sacrifique a terem que escolher entre duas tias aborrecidas e igualmente caquécticas. Há mesmo limites e uma coisa é tolerar, outra é estender o tapete e fazer-lhe a festa com dinheiro do nosso bolso.
É tempo de a classe política se redimir. Todos os partidos têm responsabilidades. Ou acontece como o parente distante: Só lhe dão o valor depois de já não estar entre nós. E aí é sempre tarde demais.