Peço desculpa. Para ilustrar o texto vou usar a imagem de uma patologia grave. Mas já não há como explicar o inexplicável. Ou ganhamos defesas, o que não é fácil, ou somos sugados pelo vórtice da depressão colectiva. Quando ouço o Presidente da República apelar à dedicação dos jovens pelo país tal como há 50 anos outros jovens fizeram na guerra em África, quando vejo José Sócrates ameaçar com eleições antecipadas caso o PEC IV não seja aprovado e os lideres dos partidos da oposição, nomeadamente o PSD, vacilarem mas a aguentar o discurso porque, se calhar, há sondagens que não lhes são assim tão favoráveis, concluo que os nossos dirigentes políticos piraram, incluindo os fazedores de opinião remetidos para a esfera dos adivinhos quando não é esse o seu papel. Estou preocupada com as consequências nucleares do desastre japonês, (eis a prova: dominar a Natureza, nem o Japão consegue com toda a sua tecnologia), mas também com os esgares, caretas e trejeitos diários de um país triste e doente que optou pela automedicação de risco. A panela de pressão não aguenta mais vapor. E vai rebentar. Como? Não sei. Talvez com gritos na rua, libertando-se, através de uma catarse. Este povo precisa de uma cura emocional. O jornalismo, também. Mas para iniciar esse processo é necessário que compreenda, em primeiro lugar, as causas do seu problema. Quem inicia a sessão de Regressão? Deitar este país no divã, e começar pela batalha de S. Mamede? Não. Parece que já não há tempo que reviver outras vidas que não a de hoje. E a de hoje é insuportável...para alguns. Só para "muitos" alguns, repito. Dar injecções de adrenalina pensando que resolvem o quadro clínico, que recusam a diagnosticar, é de uma imbecilidade tremenda. Não julguem que a Madeira está fora deste quadro. Está bem dentro. Não reconhecê-lo é alimentar ainda mais o monstro, como um dia escreveu Cavaco Silva no intervalo entre deixar de ser primeiro ministro responsável por uma década e assumir o primeiro mandato como Chefe de Estado. A região autónoma precisa de uma reavaliação de métodos e de muitas sessões de tratamento, incluindo obesidade. Quem vive na região, precisa de saber para onde vai, o que trouxe a autonomia política, administrativa e financeira que não é capaz de ultrapassar uma crise financeira. Assiste-se a uma classe social cada vez mais estratificada. Voltou-se a criar uma nata de famílias do regime que se cruzam numa malha cada vez mais apertada rodeados por servos obedientes...há sempre servos tal como há muitas madeiras velhas, cada vez mais velhas, que se aproveitaram e aproveitam dos madeirenses. Demais. E há responsáveis. Tem de haver. Ou andámos aqui todos estes anos à deriva? A culpa será sempre dos outros? Não haverá espaço para um minuto de silêncio, parar para reflectir? Três décadas é muito tempo e as pessoas apostaram forte e feio, acreditaram. Neste momento, interessa ouvir a estratégia de quem governa. Em que estado se encontra a Madeira, que mudanças imediatas estão a ser estudadas. Como usar os instrumentos disponíveis. As tiradas para fora, para título de jornal, não interessam nada. É palha ardida. No fundo, o governo regional sofre do mesmo mal que o governo da República. Um total desastre de comunicação incapaz de explicar as partes boas e más, acumulando erros uns atrás dos outros, umas vezes por ausência das palavras, outras por excesso delas sem significado, lidas como delírios, crenças falsas, ou algo mais preocupante, uma perturbação mental grave caracterizada por uma perda de contacto com a realidade. A esquizofrenia é um problema de saúde pública de primeira grandeza em todo o mundo. Em alguns países, os doentes ocupam cerca de 25 % das camas dos hospitais. Portugal, no seu todo, está acamado. Será uma predisposição genética? Uuma infecção viral do cérebro? Os sintomas estão aí: vulnerabilidade, dificuldade para processar a informação, incapacidade para prestar atenção, dificuldade para se comportar de modo socialmente aceitável e impossibilidade de enfrentar os problemas. Há muita cabeça a "ouvir" vozes. Tratem-se.

Lilia Bernardes