Os recentes acontecimentos no Japão catapultaram a questão da energia nuclear e do seu processo de produção para a ordem do dia. Não bastava a dimensão do desastre natural que assolou aquele país e aquela zona da Ásia, teremos agora de nos preocupar e inquietar com as repercussões que, naturalmente, as avarias nas centrais nucleares poderão ter na vida de todos nós. Porque vivendo fisicamente muito longe, não podemos dizer que estamos a salvo das graves consequências que um desastre nuclear pode causar nas nossas vidas e no futuro do planeta, desta parcela onde habitamos. Mesmo assim poderemos ser obrigados a tomar precauções pouco comuns. Nunca fui militante anti-nuclear, nem nunca me senti sensibilizado para entender que esta ameaça poderia chegar a outros sítios que não optaram por essas alternativas de produção de energia. Uma posição egoísta, reconheço, mas que resulta do facto de nunca ter sido minimamente tocado por essa ameaça. A tragédia de Chernobyl acompanhei-a de certo modo, aqui neste jornal. Mas a ideia que ficou foi que a sua extensão do desastre se deveu mais à falta de habilidade dos técnicos soviéticos, que menosprezaram recomendações básicas do sistema de produção que noutros países mais evoluídos, eram seguidas de forma rigorosa e estrita. Pensava eu… não obstante os tristes resultados que sabemos que esse desastre provocou no Leste. As ameaças a que estamos hoje expostos faz-nos pensar um pouco melhor sobre os efeitos da falência da segurança dos sistemas de produção da energia atómica no Japão, supostamente um país evoluído, em termos científicos e tecnológicos, bem como noutros locais onde estão instaladas centrais com iguais sistemas em actividade. A Natureza pregou a partida maior que foi mostrar que nada é tão seguro que nos permita estar descansados quando instalamos sistemas pouco recomendáveis e que pressupõem riscos excessivos em caso de desastre. Pois tenho (e temos) esta ameaça para tomarmos uma melhor consciência sobre o nuclear e para nos tornarmos militantes da causa, agora, talvez mais compreensível, numa época em que cada vez mais se defende o recurso a fontes de energia renováveis e descentralizadas. Devemos alertar a sociedade para uma questão que poderá nos complicar muito a vida nos próximos tempos. Atentemos apenas no número de centrais nucleares que estão ao serviço, até mesmo na Europa, que teremos logo uma ideia da dimensão da tragédia em caso de desastre. Alguns dirão que nada temos a ver com isso… Errado. Tão errado, como pensarmos que um vulcão na Islândia não tinha nada a ver connosco. À sua conta fiquei ‘trancado’ em Lisboa quatro dias em Maio passado. Vá lá que nesta questão os efeitos não afectaram a nossa saúde. Numa ocasião em que a aldeia é cada vez mais global é bom que tenhamos consciência de como algumas grandes invenções nos complicam a vida em nome do modernismo e de uma sociedade tecnologicamente mais evoluída. Uma sondagem ontem divulgada na Alemanha indica que mais de 80 por cento dos alemães temem o recurso à energia nuclear em todo o mundo e 63 por cento deseja que a Alemanha abandone rapidamente este tipo de energia. Na Internet começou ontem a circular um manifesto de um grupo ambientalista constituído nos Açores que foca também esta questão, que procura adesões à causa anti-nuclear. E alerta para uma questão que, penso, todos nós, cidadãos, alguma vez já notámos: “Dados os riscos que envolve, a indústria nuclear é por natureza secreta e pouco transparente". Será que queremos pactuar com este segredo e com esta falta de transparência?! “Não, Obrigado” foi um ‘slogan’ que li em tempos idos, talvez na época dos ‘hippies’… Não vou me tornar ‘hippie’, mas acho que tenho pena de não ter subscrito essa euforia contestatária de então. Mas não é tarde, para termos uma melhor consciência sobre uma questão que pensávamos ser um atrevimento de jovens mal informados.