Há não muito tempo um desses comentadores versado em tudo, numa entrevista a propósito da subida do preço dos combustíveis, falava, como se de uma realidade concreta se tratasse, do "nervosismo dos mercados" e repetia à exaustão que os "mercados estavam nervosos". Já não restam dúvidas de que a estratégia destes defensores dos PEC's regionais e nacionais, é fingir a inevitabilidade de estarmos sujeitos à cólera destes deuses tirânicos e violentos que são os mercados e depois, com esta "sabedoria", defender e justificar todo o amontoado de medidas de austeridade que apenas servem os interesses dos que se escondem atrás deste conceito abstracto de mercado e lucram com o fim da regulação das economias. A arrogância é de tal forma grande que se usam estes clichés absurdos e desprovidos de rigor como se de máximas de sabedoria profunda e de ciência exacta se tratassem. Mas há sinais de mudança: os mais jovens convocaram todos para o protesto e no dia 12, uma onda de descontentamento atravessou o país. Sem rodeios, exigiu-se trabalho com direitos e salários dignos, exigiu-se desenvolvimento social e progresso num país refém da histeria dos chamados mercados e das imposições do capital financeiro que não tem pátria nem respeita a soberania dos Estados. É necessário reforçar este gesto de generosidade dos nossos jovens e fazer do próximo dia 19, sábado, na manifestação nacional convocada pela CGTP-IN, a oportunidade para exigir a mudança de políticas colocando o emprego, a educação, a saúde e a segurança social como pilares da soberania de Portugal. As ameaças teatrais de demissão do Primeiro-Ministro e toda a encenação de crise política não podem desmobilizar o protesto, pelo contrário, dão-lhe ainda mais sentido.

Isabel Cardoso, Professora