A enorme agitação actual, como em qualquer época de ruptura, conduz, em geral, à adopção de uma de duas atitudes: a saudade dos "tempos áureos", acompanhada do desejo de a eles voltar; ou a tentação de tudo pôr em causa, procurando-se novas e radicais soluções para os problemas que nos assolam. Em qualquer dos casos, temos tendência para esquecer que a crise vem acompanhada da prosperidade de outras regiões que, se é verdade que nos colocam desafios dificílimos, também é verdade que nos abrem novas oportunidades.
Esta observação aplica-se tanto às sociedades como às organizações. Em particular, aplica-se à Universidade da Madeira: sentimos a crise de forma aguda; as duas reacções tipo, atrás referidas, estão bem presentes dentro da instituição e as oportunidades que se nos abrem com a crise, são claras.
Neste quadro, a Universidade enfrenta desafios enormes ao nível das suas prestações científica e pedagógica e da sua organização. Com efeito, ao aumento da exigência na investigação científica, vemos hoje associar-se uma drástica redução do financiamento público dessa actividade, com a consequente necessidade de a dirigirmos para a resolução de problemas que interessem às entidades privadas, pelo menos o bastante para a quererem financiar. Ao nível da formação, a mobilidade profissional no quadro europeu conduz a um complexo sistema de certificação e reconhecimento, necessário para que tal mobilidade se torne uma realidade. A prazo, seremos conduzidos a um quadro competitivo duríssimo que o poder político, por razões óbvias, procurará regular a um nível diferente do actual. Em consequência, aos Estados caberá, apenas, a obrigação de avaliação das diversas instituições, com o objectivo de informar a sociedade sobre a qualidade dos seus graus. Para sobreviverem, às instituições não bastará disporem de um quadro académico de grande competência e de uma oferta formativa de qualidade. Terão de ser capazes de o demonstrar, o que só conseguirão através de uma profunda reforma de toda a sua organização, que deverá ser capaz de provar que tudo o que nela se faz se encontra aprovado no local próprio e certificado pelas entidades competentes. Esta transformação enfrenta dificuldades naturais, provenientes de um instinto conservador que, mais presente do que se imagina, vê nela uma ameaça à autoridade académica.
Imaginemos que conseguimos responder com sucesso a este desafio e que a nossa organização atinge o nível das suas congéneres de outros países. O benefício para os nossos estudantes será claro, pois ganharão uma capacidade acrescida de mobilidade internacional. Mas poderão abrir-se, igualmente, grandes oportunidades para a economia da Região, se conseguirmos atrair estudantes de outras paragens, por exemplo.
Com efeito, temos vindo a assistir a um movimento crescente de estudantes oriundos, sobretudo de países como a China, que aproveitam a prosperidade das suas economias para se deslocarem para a Europa e a América, a fim de aí estudarem. Este movimento, que as universidades inglesas exploram há décadas, tem vindo a ser aproveitado com sucesso em países como a Alemanha e a Finlândia, conscientes da imagem cultural positiva que a Europa tem junto dessas sociedades.
Aproveitar esta oportunidade requer transformações na nossa forma de operar, a outros níveis para além do organizacional. Por exemplo, será necessário reconhecer a necessidade de parte da nossa actividade pedagógica se vir a desenvolver em língua inglesa. Como sempre, a implementação de uma tal medida motivará a reacção dos mais conservadores, com argumentos como os da defesa da língua, tão deslocados aqui como nesses países. Mas estou certo de que a maioria da academia verá essa oferta como positiva e aderirá à medida, que será precedida de um conjunto de actividades de formação e actualização a desenvolver, ao longo dos próximos tempos, no nosso Centro de Desenvolvimento Académico.
O impacto desta abertura na economia regional será muito positivo. Aqui, como noutras paragens (veja-se o exemplo do Minho), a Universidade deve ser um instrumento de desenvolvimento económico e cultural, muito para lá do que seria esperado no mundo de há vinte anos. Para isso, temos vindo a implementar uma profunda e exigente transformação. Mas, numa época de severas restrições orçamentais, é fundamental que a Região reconheça, ainda mais do que já faz, quão importante poderá ser o nosso contributo para o desenvolvimento e afirmação internacional da Madeira.
Não defendo que esse reconhecimento deva realizar-se de forma indiscriminada. Mas, com as provas já dadas nos programas de cooperação que temos com os Estados Unidos, claramente colocados nesta linha de abertura internacional e que só nos foi possível iniciar porque a Região o apoiou, seria da mais crucial importância para o nosso sucesso que esse apoio aumentasse. Seria, sobretudo, um investimento no futuro com efeitos económicos claros. De facto, se pensarmos que, em média, um turista passará uma semana na Madeira e que um estudante passará quarenta semanas, não será exagerado imaginar que um estudante gastará o equivalente a mais de vinte turistas. Ou seja, cem estudantes equivalerão a mais de dois mil turistas. E, para além deste efeito directo sobre a economia, haverá, ainda, o efeito de promoção da Região, que não esquecerão ao regressarem às suas terras.
A Madeira tem uma tradição de abertura que a Universidade perfilhou desde muito cedo. A Madeira poderá ter, na sua Universidade, um instrumento fundamental de desenvolvimento económico. Acreditamos nessa possibilidade e continuaremos a trabalhar para que ela se torne uma realidade.
Castanheira da Costa