
Ao longo do último mandato, o governo teve altos e baixos nas inevitáveis medidas de austeridade que adoptou para corrigir o descalabro das contas públicas. Mas, cada vez mais, questiono-me que calculadora usará Teixeira dos Santos. Aposto é uma Casio de 500 euros que só faz cálculos de álgebra, alimentada a energia solar e paga pelos contribuintes endividados até ao pescoço. É por isso que temos um executivo sem energia que decide, no obscurantismo, ideias sem brilho e anuncia a vulso contas ocultas que ninguém percebe.
Alguém sabe o nome da ministra do Trabalho e da Segurança Social? Maria Helena André desapareceu. E não desapareceu só hoje. Anda desaparecida há vários meses. Permitir que um trabalhador fique nove anos em situação de contrato a prazo, mais um de estágio profissional e outros tantos a recibos verdes ou ‘negros’, equilave a uma década de instabilidade, após a qual poderá vir a ser substituído por outro que se segue na fila dos 500 mil desempregados. Parece que voltámos à Revolução Industrial: contrata-se mão-de-obra em vez de recursos humanos. E sobre isto o Ministério de Maria Helena André mantém mistério. Está claro que esta medida atinge sobretudo os mais jovens, que virão hipotecadas as legítimas aspirações de conquistar a sua independência financeira, de constituir família ou de sustentar uma casa. O mais grave é que isso conduzirá a um envelhecimento assustador da população, pondo seriamente em causa a sustentabilidade do sistema de Segurança Social, tal como o conhecemos hoje, deteriorando a nossa qualidade de vida e as condições de acesso à saúde.
E Vieira da Silva? Sobre que economia faz o ministro as suas prospecções para falhar tanto e tão redondamente, transformando previsões pessimistas aos olhos de todos no mais optimista dos cenários? Quando se erra quatro vezes, tantas quanto as versões do PEC que já nos foi presenteado, das duas uma: ou somos quadrúpedes ou mentirosos compulsivos. Para os portugueses tanto faz porque o que se exige a quem executa é transparência política, verdade nas decisões, rumo nos objectivos e certeza quanto aos resultados. E neste campo, o governo de José Sócrates tem sido um logro.
Esta forma atabalhoada de dirigir um país é desconcertante. Aparece agora José Sócrates a liderar um governo sem maioria, mas mais prepotente do que nunca e pouco interessado em submeter as suas decisões à democracia parlamentar, aliviando a carga da responsabilidade para os ombros de quem compete aprovar o PEC IV: ou votam a favor ou carregam o ónus da culpa pela entrada do FMI em Portugal.
Creio que este clima de ‘guerra fria’ política – criado pelo PSD de Passos Coelho, que aguarda o momento ditado pela popularidade nas sondagens para dar o golpe final, ou pelo PSD de Cavaco Silva que, empolgado pelo resultado eleitoral nas ‘Presidenciais’ ou pelo sinal da ‘geração à rasca’, sentiu que era este o momento para dar uma reviravolta ao discurso e deixar claro que o sacrifício aos portugueses tem limites – está a esgotar o discernimento e o pragmatismo que ainda restava ao governo Socrático.
E será certo que uma das primeiras medidas impostas pelo FMI será mesmo a abolição do 13.º e 14.º meses, uma regalia que compensa o facto de sermos dos trabalhadores mais mal pagos da Europa. Certamente que este corte dirá pouco aos administradores da Tap, da Caixa Geral de Depósitos ou da RTP, cujas remunerações-base constituem fortunas acima daquela que aufere, por exemplo o chefe do governo francês, Nicolas Sarkozy (250 mil euros/ano). Quando foi tempo de distribuir ‘jobs for the boys’ ao longo dos últimos 30 anos, todos se atropelaram, agora que é preciso cortar estas excentricidades sustentadas pelo erário público e obter receita através de uma maior tributação aos bancos, todos fogem. Que coragem esta de distribuir o mal pelas aldeias, num país que continua preso às velhas teias, dividido entre acomodados e inconformados, entre os que se acomodam e os que ainda fazem por incomodar.