Ser genuíno é uma qualidade na vida humana em geral. É também uma qualidade para um destino turístico. Porque uma larga gama de clientes valorizam tal característica. Ser genuíno - verdadeiro, próprio, natural, puro - é um activo forte para a atracção de visitantes. Mas há uma segunda característica igualmente importante: a 'imperfeição' dos locais. É o que faz de Lisboa ou do Porto (ou outras cidades portuguesas) cidades muito apreciadas pelos visitantes e frequentemente consideradas pela imprensa internacional de referência como destinos obrigatórios. Ou seja, para além do clima, da paisagem, dos monumentos, os visitantes tendem a valorizar o que encontram de 'diferente' nestas cidades: assimetria, 'caos' aparente, ruas estreitas, um cheiro a sardinha… Uma atmosfera com um certo surrealismo que países centrais e nórdicos já não têm. É aquilo que o poeta lembrou como sendo o que Lisboa tem e Bruxelas não tem: o Sol e o Sul. Não apenas o calor do Sol mas também o calor das pessoas e as características e imperfeições do Sul. É a conjugação da genuinidade dos locais com a sua imperfeição que dá aos destinos turísticos um carácter 'único'. E ser único em turismo é deter um activo da maior importância. Não importa, pois, procurar 'normalizar' a arquitectura, infraestruturas e acessibilidades, jardins e bares. Porque isso tornará estes iguais a todos os outros. E destruiremos, assim, o nosso activo 'único'. Estes princípios aplicam-se ipsis verbis à reflexão sobre a Madeira e o Porto Santo. Quando vejo vias rápidas por todo lado e as antigas e deslumbrantes estradas regionais deixadas ao desmazelo reajo criticamente. Quando vejo areia amarela nas praias da costa sul da Madeira recordo que não é isso que dá à Madeira uma carácter único, genuíno… mesmo admitindo a imperfeição (bela…) dos calhaus das nossas praias naturais. Quando vou em túneis do Funchal ao Porto Moniz e, ao chegar, deparo-me com uma vila descaracterizada por construções que posso encontrar em qualquer local de tantos outros sítios não posso sentir-me feliz. O mesmo com os centros cívicos e de congressos da Madeira e do Porto Santo que tendem a fazer destes locais como os outros. Não é esse o caminho que se deveria ter seguido. Tais erros pagam-se, já hoje, com procura menor e menos qualificada e com preços mais baixos. Menos empregos e menos bem estar. É à luz destes princípios que se deve reflectir sobre o aterro do Funchal. Se mantê-lo ou adaptá-lo a novas facilidades portuárias significar desnaturalizar a baía do Funchal, no prolongamento da 'artificialização do litoral' da Madeira, então deve parar-se para pensar e respeitar a genuinidade (mesmo que imperfeita…) da nossa Cidade Capital. Mesmo sabendo que económica e comercialmente seria uma mais valia.
Maximiano Martins - Deputado