Para um músico o Primeiro de Maio será uma mera possibilidade de trabalho, ou um simples feriado? Se nós, músicos, somos supostamente sensíveis e dotados de um senso maior e intelectualmente privilegiados, deveríamos ter uma concepção mais profunda desta data. Não apenas a data, mas a partir disto nos inserirmos num contexto bem maior do que as nossas quatro paredes, onde diariamente nos esmeramos a lapidar a técnica e musicalidade. Precisamos romper estas paredes. Não é por acaso que o Primeiro de Maio é uma data que marca mundialmente a luta de trabalhadores que buscam dignidade e melhores condições de trabalho. Não é isso que nós músicos procuramos? Talvez a nossa dificuldade seja em nos perceber como trabalhador modelo, que de facto não somos. Uma legislação específica justamente por termos uma actividade atípica, inserindo e coexistindo num colectivo onde toda uma cadeia reguladora se faz necessária, para o exercício da nossa actividade que é alvo cada vez mais de um tratamento no descaso, na exploração e exclusão, despromovida de direitos básicos. Somos todos trabalhadores, actividades diferentes, mas iguais nos direitos e obrigações de cidadão e de ser humano. Dignidade é direito de todos, acesso ao trabalho é direito de todos, condição razoável de trabalho é direito de todos. Somos simultaneamente donos do som, da voz, da palavra; devemos nos fazer presentes e activos nas lutas colectivas: existindo como parte de um todo. Primeiro de Maio é o dia do músico!

Ricardo Dias - Músico