Metaforicamente, por vezes imagino uma relação, quer seja entre duas regiões, duas empresas ou mesmos pessoas, como estradas com dois sentidos. Quando estabelecemos uma parceria dá-se sempre uma troca nos dois sentidos, pode ser de diferentes formas e níveis de relação. Estou convencido que foi com este sentimento de benefício entre ambas as partes que a grande maioria da população residente na costa norte da Madeira manifestou o seu regozijo ao ver concretizado o sonho da construção de grande parte da Via Expresso que aproximou o Norte do Sul, permitindo a deslocação mais rápida e mais segura. As expectativas eram enormes, chegando mesmo, numa primeira fase, a provocar a especulação no preço de alguns bens, nomeadamente terrenos, mas aos poucos, esse entusiasmo desvaneceu-se. Muitos esqueceram que essas estradas têm dois sentidos e que a distância entre dois pontos é igual, quer se desloque num sentido ou noutro. Passou a ser tão fácil residir no Norte e ir trabalhar no Sul, como o inverso. Sempre tive algumas dúvidas, por estas e outras razões, que as estradas só por si resolvessem a maioria dos problemas da Costa da Laurissilva. Claro que não resolveram, é necessário muito mais. É necessário, e urgente, tornar transitáveis as estradas, os caminhos e as veredas mais antigos, não só como elemento de atracção turística que são, mas porque são património colectivo, e também, porque não, honrar a memória de todos quantos trabalharam arduamente para as construir em condições, como sabemos, muito mais difíceis que as actuais. Um exemplo concreto é a antiga estrada regional entre São Vicente e Porto Moniz, que tem, e sublinho tem, de voltar a ser aberta ao trânsito urgentemente. Pelo menos em algumas partes é perfeitamente possível voltar a transitar pela estrada que foi um dos cartazes turísticos da ilha e que deixa gravada na memória de qualquer um a experiência de transitar por essa encosta. A população, em particular os comerciantes, desta zona não entendem a razão desta situação e não aceitam o argumento de ser perigosa. Os sinais e avisos já estão colocados, passa quem quer. É também necessário e urgente uma maior atenção à cultura, nomeadamente etnografia, folclore, património edificado e imaterial, aos eventos e festas tradicionais. Por exemplo a festa dos compadres em Santana é um dos eventos do Entrudo mais genuínos e populares de toda a ilha. Deveria, por isso, ser divulgado como um cartaz de atracção turística enquadrado no cartaz do carnaval Madeira, dando a possibilidade aos turistas de confrontarem um evento de cariz popular e mais tradicional com outro qualquer. Para que as estradas tenham trânsito nos dois sentidos temos de cada vez mais valorizar as pequenas/grandes coisas que nos tornam diferentes dos outros. Se vamos valorizar o que é importado então de certeza que as estradas terão mais movimento num sentido, neste caso o da saída.

Joel Freitas, Presidente da ACIN