
Foram 200 mil em Lisboa, 80 mil no Porto, 2 mil em Faro, 300 na Madeira e outros tantos em outras sete cidades do país.
Entre jovens, muito jovens, outros um pouco menos mas ainda dependentes dos pais, pais solidários e avós preocupados, todos eles deram cara e voz ao protesto da geração à rasca. Talvez porque todos nós estamos mesmo à rasca, enrascados ou à rasquinha. Porque recebemos menos do que aquilo que um dia, quando começamos a tirar o curso, nos prometiam as saídas profissionais, porque temos o fantasma do desemprego sempre a pairar sobre nós, ou porque aumentam o IRS e o IVA, diminuem os benefícios sociais e fiscais, aumenta a prestação da casa, e quase sem nos darmos conta já estamos mesmo à rasca para cumprir os pagamentos e as contas.
A verdade é que todos nós estamos preocupados e isso não vale a pena negar, nem disfarçar com sorrisos. Não sabemos o que será o amanhã nem o mês que vem, não sabemos se teremos direito a reforma quando ela chegar, e se ela chegar, não sabemos se o subsídio de férias virá, se o subsídio de Natal vai ser eliminado ou se o ordenado vai continuar a ser pago a tempo e horas ou se simplesmente teremos um ordenado.
E por isso cerca de 300 mil portugueses saíram à rua na tarde de sábado, sem ligar ao frio ou às ameaças da chuva, sem se importar com o olhar atento das forças de segurança e sem medo das objectivas que captaram e marcaram imagens e rostos. É certo que os problemas não se resolvem com demagogias, como apregoou o Ministro da Defesa horas depois da manifestação, mas mais do que 300 mil pessoas, na rua, à hora marcada, em onze diferentes cidades do país, são muito mais do que pura e simples demagogia.
Quando várias gerações se unem num protesto comum (e infelizmente usado com algum aproveitamento político e para ganhar tempo de antena em proveito próprio ou de um partido) em torno de preocupações comuns (que são no fundo as preocupações de todo o país) não servem promessas de medidas a longo prazo, nem tentativas para melhorar o défice, nem PEC’s e muito menos mais medidas de austeridade. Nem servem discursos de tomadas de posse, a incentivar para a ‘luta’ dos jovens, quando os jovens de hoje estão num desalento provocado por medidas de há 15 anos.
Estamos à rasca há algum tempo e a situação tende a piorar. Que tal começar a tentar desenrascar o país? E para isso não bastam 300 mil. Têm de ser os 11 milhões.