José Sócrates, Teixeira dos Santos e companhia não são santos e têm, sem dúvida, as mãos manchadas com o 'sangue' desta crise que nos corrói a força e destrói a esperança.
Mas se isto é certo, não será menos certo afirmar que não são os únicos a arcar com os actos e as omissões de um problema que tem raízes bem mais profundas do que os últimos anos de governação. Desde logo, razões externas de uma crise à escala global, mas também razões internas que não são de agora.
A verdade é que vivemos, anos a fio, acima das nossas possibilidades, enfeitiçados pelo crédito fácil e pelo dinheiro do sonho europeu. Ou já se esqueceram daquela altura em que havia dinheiro para tudo, até para financiar despesismos, falta de critério, elefantes brancos e megalomanias várias.
Em todo o território nacional, inclusive nas sacro-santas regiões autónomas, enquanto houve verba não se pensou muito em como gastar, nem onde gastar. E foram todos muito habéis na inabiliade de não pensar o futuro.
Até mesmo os que hoje apontam os culpados, esquecem-se que fazem parte desta história pouco gloriosa mas, infelizmente, verdadeira.
Foi lindo ouvir o Cavaco Silva de Esquerda a apelar à revolta e à indignação, ao povo na rua, esquecendo, por completo, aquelas que foram as acções do Cavaco Silva da Direita. Nesta espécie de Dr Jekyll and Mr Hyde, não se ouviu uma única palavra sobre os tempos, não muito remotos, em que um primeiro-ministro, conceituado economista e homem do povo de Boliqueime, destruiu o sector produtivo português, financiando o abate de embarcações e outros disparates em terra.
Mas é claro que a memória é curta e muito permeável aos interesses do momento. Agora o que importa é falar do presente, esquecendo que este também se faz de passado, e que também este nem sempre é glorioso, isento de erros e livre de pecado.
Enquanto assim for, vão persistir os erros de 'casting', de argumento e de acção numa história sem final feliz, que, infeliznente, é a nossa.