Caro director, Confesso que este mês não sei sobre o que escrever nesta crónica. Ponderei escrever sobre a gloriosa reeleição do dr. AJJ, levado no andor pelo voto directo do povo laranja. Mas o resultado de 98,8% pareceu-me previsível e com pouca ambição - nada que um qualquer Mubarak ou Kim Il-Sung não fizesse melhor. Em alternativa, pensei escrever sobre as manobras de bastidores de delfins, benjamins, aspirantes e pretendentes que sonham, pulam e agitam. Lá diz a canção que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança - pode ser verdade para o mundo, mas não é para o PSD-Madeira. Ocorreu-me, por isso, uma crónica sobre a eterna espera pela sucessão. O título óbvio seria o ditado popular nem o pai morre nem a gente ceia, mas voz amiga avisou-me que podia ser mal interpretado. Desisti. Tropecei numa frase do dr. AJJ que me pareceu de enorme perspicácia: "Marítimo está como o Estado português. Precisa de uma mudança qualquer". Pareceu-me uma metáfora certeira sobre falência e fim de ciclo, que abria perspectivas interessantes para o futuro. Escrevi um texto à volta disso. Só no fim, ao reler, reparei que a frase era sobre o Marítimo e não sobre a Madeira, como precipitadamente me tinha parecido. Foi o texto para o lixo, que eu de bola não percebo nada. Diverti-me com as desventuras do ex-candidato-Coelho-com-milhares-de-votos-no-bolso, que inchou tanto que deixou de caber na pequena barriga de aluguer que lhe tinha dado guarida até 23 de Janeiro. Mas escrever sobre as últimas semanas do ex-candidato-Coelho-que-foi-a-surpresa-das-presidenciais seria escrever sobre a velha tendência da oposição madeirense para se imolar pelo fogo, com espalhafato e nenhum proveito. Nada de novo, portanto. Em desespero, li a moção de estratégia que Sócrates vai levar ao congresso do PS, a ver o que diz sobre as autonomias em geral e a Madeira em particular. Mas analisar o pensamento de Sócrates sobre as autonomias implicava deixar esta coluna em branco (o que talvez não fosse pior, mas julgo que o excelentíssimo director não acharia piada). Como recurso, li a moção com que o esforçado dr. Serrão se "candidata" contra Sócrates. Ainda esbocei uma teoria sobre a forma como o ex-candidato-Coelho abriu uma Caixa de Pandora, provando que levar o combate político madeirense para o palco nacional pode dar bons resultados na região. A tese nem era má, mas concluí que nenhuma tese resiste à irrelevância do dr. Serrão. Abandonei-a imediatamente, tal como o eleitorado fez com o líder do PS-M. Ainda pensei ler a moção sectorial sobre reforço das autonomias com que um grupo de voluntaristas madeirenses tentou colmatar a distração de Sócrates sobre o assunto - mas quando vi que o próprio Sócrates apoia essa moção, o exercício pareceu-me vagamente inconsequente. Assim, caro director, este mês não tenho tema. Talvez no mês que vem. Por exemplo, se o Conselho de Governo passar a fazer, por decreto, a previsão do estado do tempo. Isso sim, seria uma lufada de ar ameno. Cumprimentos, [email protected].
Filipe Santos Costa Jornalista do Expresso