Ninguém ignora que os meios modernos de propaganda - indispensáveis para garantir a docilidade dos povos e para dar ao políticos a ilusão de uma adesão espontânea - tornaram ainda mais eficaz a utilização da mentira: a privação das liberdades públicas impede a contestação. São estas liberdades que dão sentido à democracia. Aqui, na Madeira, como em qualquer outro lugar no Médio Oriente, em África ou na América Latina. Em democracia, o político já não tem a preocupação de atemorizar, mas de agradar e de arrastar as pessoas, argumentando com as armas da sedução. Não o preocupa muito a escolha dos meios, mas as liberdades mantêm-no em respeito, tendo de se sujeitar a ser discutido, contraditado, observado e posto em causa; tem consciência de que o poder lhe vem através da decisão do povo e não através da força bruta concentrada nas mãos de um pequeno número. Os tempos são outros e o político tem que ter isso em conta. Tem que se situar contra o mundo de aparências e encenações que nos rege, o êxito fácil, os rótulos vazios, as abstracções falsamente universalizantes, o culto do consenso pelo consenso (novas formas de dogmatismo e censura), a arrogância e os preconceitos de uma determinada comunicação social. Numa palavra, contra a mediocridade e o triunfo da mediocridade. Não podemos deixar de referir que a fronteira entre a ambição dos políticos e o exercício do poder, a consciência moral e a cegueira ideológica, o juízo dos homens e o entendimento da História, constituem hoje a agenda política de partidos e de opinião pública em geral. Por isso a pertinência de estar contra este jogo onde a liberdade de tom que é uma festa permanente, limpidez expressiva, clareza de espírito, não o é. Porque a linguagem de um homem verdadeiramente culto não serve para intimidar, mas para esclarecer e cativar. Por isso a minha postura perante um manipulador sem princípios ou convicções de espécie alguma, hábil no conluio e na artimanha, para quem a actividade politica se circunscreve apenas e tão-somente ao triunfo dum desígnio pessoal destinado a assegurar-lhe a conquista e a ocupação do poder - suprema volúpia para o aventureiro que nunca deixou de o ser e quer continuar como sendo um super herói que a todos critica e tudo não respeita. O que se passou há dias na Assembleia Legislativa da Madeira, na discussão de uma moção de censura do PCP-M, é no mínimo uma forma despeitada de afirmação social. O desdém pela opinião pública, a mesma tendência conspirativa traduzida no culto do segredo e da sombra e o recurso permanente à mentira como método de governo são regras permanentes e intoleráveis. Há toda uma ética de valores que urge criar e estimular, tendente a uma paz social que urge. Não podemos esquecer que a maturidade política está no povo, não está nas elites ou pseudo elites. É tempo, julgo, de sairmos do mundo da clausura para o mundo da participação, da ruptura e da novidade. A urgência é outra expressão do nosso empenho democrático. É tempo de sermos finalmente protagonistas do nosso próprio destino. Quando olho para esta terra, que me habituei a amar, como não me canso de dizer, e leio os seus baixíssimos indicadores socioeconómicos, talvez porque tenha sido sempre um espaço paupérrimo, arreigado a outras prioridades essenciais, e a pobreza a nossa verdadeira forma de cultura, herdada ao longo de sucessivas gerações, não deixo de concluir, que essa sim, é a nossa memória colectiva onde o mais temível adversário de vencer sejamos sempre nós e não o desconhecido prostrado por acaso à nossa frente. Esgotamos os modelos sociais e políticos que não souberam criar ou inovar coisa alguma, temos de caminhar para uma sociedade de complementaridade que seja simultaneamente desafio e enraizamento. Sugere-se, pois, uma nova forma de entender a actividade política - na qual o fenómeno anti-democrático nunca poderá ocorrer - o que é de grande importância no actual momento histórico. Numa palavra, criar nesta terra um mundo à medida dos seus cidadãos. Já não é sem tempo!
José A. Roque Martins