Já o escrevi várias vezes: vivemos numa sociedade acrítica e cómoda, que se dispensa de pensar. Continuo a acreditar no mesmo. No entanto, tenho de admitir que o silencioso protesto, na Madeira, nas últimas eleições presidenciais, o abraço ao aterro e eventual disponibilidade para a manifestação de hoje à tarde, também no Funchal, são sinais a que é preciso dar atenção. Pela proximidade com a tímida disponibilidade para a crítica gerada pela tragédia do 20 de Fevereiro e, sobretudo, pela proximidade com as eleições regionais de Outubro. Apesar destes sinais válidos, é bom lembrar que o exercício de uma cidadania plena não deve ter como primeiro caminho o protesto na rua. Muito menos quando essa manifestação de desagrado não resulta tanto de uma consciência crítica mas mais de um arrebanhamento em que alguns dos participantes aceitam aderir com a mesma predisposição que aceitariam uma tarde na praia entre amigos. O ideal seria um crítica assente num pensamento que vai para lá da mera moda de ir para a rua gritar, numa tentativa falhada de revivalismo revolucionário. Ainda mais quando a esse movimento alegadamente espontâneo se cola uma juventude partidária como a JSD-Madeira, conforme é anunciado nesta edição. Era perfeitamente dispensável esta estranha participação num movimento que se anunciava apartidário. Mais: que inicialmente prometia lutar pela demagógica - como disse, e bem, Miguel Sousa Tavares -, substituição total da classe política portuguesa. Ora, esta marca do açambarcamento de tudo o que faça mexer a sociedade madeirense é, só por si, motivo de muito maior preocupação do que a ‘juventude à rasca’ que hoje promete sair à rua. Por mais dificuldades que tenham os jovens, o sufoco político em que alegremente vivem afigura-se bem mais merecedor de uma ida à Quinta Vigia. Mas isso são outras contas. O que importa realmente realçar hoje é a disponibilidade para protestar ou elogiar. Sem medos, sem ter de olhar para trás, sem se preocupar com a perspectiva de perder a promoção no trabalho ou até mesmo o emprego. Essa disponibilidade é meio caminho andado para outras provas de descontentamento. Apesar de eventuais tentativas de manipulação partidária, este tipo de eventos pode criar lastro, servir de exemplo a outras situações bem mais concretas. O tal sobressalto cívico que Cavaco tenta promover não se revê nestes cortejos, mas é melhor isto do que nada, temos de reconhecê-lo. O problema é que o Cavaco Presidente - que não o Cavaco primeiro-ministro -, tem feito dos incentivos à participação dos mais novos uma das suas mais marcantes bandeiras, mas se estes são os primeiros resultados, então a mensagem tem passado de forma deficiente. Participar não é apenas gritar e esgrimir tarjas de pendor partidário. Participar é estar atento, denunciar, criticar, elogiar se for o caso. E nunca se demitir de pensar.