Cavaco Silva deve ter escrito o seu discurso de tomada de posse enquanto assistia pela televisão ao Festival da Canção 2011. É que se começou com um discurso de ministro das Finanças, num tom que é seu e de mais ninguém, a dada altura só lhe faltou o megafone para parecer o Jel.

Quando o Chefe de Estado disse: “Há limites para os sacrifícios”, confesso que na minha cabeça ouviu-se o “ti-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri-ri”. E cheguei a pensar que levado pelo entusiasmo, o Cavaco da luta, que se apresentou aos portugueses, fosse acrescentar: “E o povo, pá?”. Não o fez, mas foi como se o fizesse, na convocação que se seguiu: "Faço um vibrante apelo aos jovens de Portugal: Ajudem o vosso País! Façam ouvir a vossa voz. Este é o vosso tempo”, como que a dar fiança às manifestações da geração à rasca que se realizam amanhã.

Lamento informar-lhe, senhor Presidente, mas já veio tarde. Jel e Falâncio já lá estavam. Quem vai sair à rua amanhã, não precisava da sua autorização. Vai, precisamente, porque não se resigna e porque gostaria de mostrar a todos, como disse, “que é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna”. Acho que vão procurar mostrar “às outras gerações que não se acomodam nem se resignam”. E fazem-no na rua à moda de antigamente, e não com um ‘like’ no Facebook. Acredito ainda que se movimentem não porque são parvos, como apregoam os Deolinda, nem tampouco porque a luta é alegria (só se for para o PCP), como ‘cantam’ os apupados vencedores do festival da canção. A desafinação dos Homens da Luta, em placo, foi semelhante à de Cavaco Silva no palanque da Assembleia da República. Nem Jel sabe cantar (é um entertainer), nem o Presidente tem poderes para tomar as rédeas ao país, como quis dar a entender. É que Cavaco Silva não vai governar, vai presidir. E por isso de nada serve que apele ao grito dos jovens, se depois nada faz para que estes tenham oportunidade de viver país mais justo, que nem só o Presidente almeja. Até porque se está muito interessado em ouvir os jovens devia chamá-los a Belém.

Miguel Sousa Tavares disse que Jel e Falâncio, duas personagens recorde-se, são demagógicos. Acredito que Cavaco Silva também. Em ambos os casos estão a concorrer num festival que não é o deles. E se os Homens da Luta estão mandatados por quem os escolheu, o Chefe de Estado não estará, porque quem votou nele fê-lo no âmbito do sistema semi-presidencial que é o nosso. Se a mensagem de Cavaco Silva foi um interlúdio para fazer cair José Sócrates, devia ter sido assumida com outra franqueza. Porque os portugueses – jovens ou não – têm que saber contra e a favor do que lutam. Não precisam de quem os incentive a gritar até que a voz lhes doa, mas de alguém que os ajude e os integre como parte da solução.

No fim da intervenção já não ecoava o ‘ti-ri-ri’ inicial que foi banda sonora de parte do discurso. Ao ver o entusiasmo da direita a se preparar para tomar de assalto o país moribundo só me lembrei dos Vampiros de Zeca Afonso: “Eles comem tudo/ Eles comem tudo/Eles comem tudo E não deixam nada”.