Stéphane Hessel tem 93 anos, nasceu alemão mas naturalizou-se francês e distinguiu-se na Resistência. É judeu mas defende o direito do povo palestiniano a ter o seu Estado. Foi um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Em Outubro de 2010 fez publicar em França um pequeno opúsculo que já ultrapassou os 1,3 milhões de exemplares vendidos e está a ser traduzido em mais de uma dezena de línguas. O que tem de tão especial este panfleto de apenas 14 páginas de texto útil? Tem tudo: é escrito por um não-político, num estilo directo e simples, sem pinga de demagogia; apela à indignação, mas também à acção, incitando os jovens a combater a indiferença e a lutar por valores como a liberdade, a democratização do ensino, o direito à reforma, o apoio aos mais desfavorecidos, entre outros. Num artigo do "Público" sobre este fenómeno editorial, o filósofo Eduardo Lourenço justifica-o como "sintoma do mal-estar e da crise profunda que hoje se vive em França (…) expressão de uma revolta moral e ética". Enquanto em França é este velho resistente que "abana o sistema", em Portugal ainda não se sabe bem que forças se estão movendo para alterar o estado a que isto chegou. Contra o desemprego, as reduções de salários, os congelamentos de carreiras, o aumento generalizado dos preços, a precariedade, os impostos, o medo do FMI e todas as outras pragas que nos assolam, a melhor arma parece continuar a ser o sentido de humor - ou será antes uma demência colectiva? Primeiro foi a saga/rábula do "Coelho ao Poleiro" a dar a nota de ironia á campanha presidencial, e que culminou numa luta de galos dentro dum partido "de aluguer" que se transformou num saco de gatos…Resultado - a oposição na Madeira vai continuar entregue à bicharada! Nem de propósito, foi fundado um novo partido - o PAN - Partido dos Animais e da Natureza. O conceito só por si já puxa á gargalhada, mas será esta a solução milagrosa? Seria um achado "alugar" este partido para unir a oposição - logo á partida há lugar para enquadrar o Coelho e o Jacinto, um a cumprir a quota dos Animais e o outro a da Natureza. Além disso, finalmente haveria um partido com legitimidade para assumir a pretensão de fazer eleger carneiros e burros para cargos públicos… Mas o pendor cómico continua, principalmente ao som da música. Vários movimentos começaram a surgir, principalmente através das redes sociais (Facebook, Twitter, etc.). e pelo menos um deles tem aparentemente crescido como uma bola de neve - a "Geração à Rasca", que se apresenta como apartidária, laica e pacífica, e conta mobilizar milhares de pessoas por todo o Pais. Os "bonzos" da análise política apressaram-se a minimizar a importância desta manifestação, mas são cada vez mais os que querem ver aqui o nosso "Dia de Raiva". E o que tem isto a ver com música? Tem, e duplamente - em primeiro lugar uma nova canção dos "Deolinda", "Parva que eu sou", tornou-se num hino instantâneo, ícone desta geração que para "ser escrava precisa estudar". Os problemas continuam, mas a canção já chegou á Assembleia da República. E como se não bastasse, os Homens da Luta ganharam o Festival da Canção através do traiçoeiro Televoto. E num ápice, nunca se viu tantos portugueses indignados! Até Miguel Sousa Tavares veio dizer que é a pior coisa que nos podia acontecer, o que é que os alemães e a Sra. Merkel vão pensar, como é que vão reagir quando aparecermos de mão estendida? A sério? Estão a gozar? Hellooo!!! É o Festival da Eurovisão, que já era uma festa kitsch e pimba quando passava a preto-e-branco e só havia um canal de televisão. Para os portugueses, durante muitos anos, foi como Olivença - era nossa, mas roubaram-na! Juntamente com os Jogos Sem Fronteiras, era visto como uma epopeia lusa - neste ganhávamos às vezes (mas já não existe), no outro éramos sempre espoliados - só que ainda existe, continua a ser kitsch e pimba, só que já ninguém lhe liga - é irrelevante! Há anos, foi ganho por uma banda de Heavy Metal finlandesa, e o pobre Eládio Clímaco ia tendo um AVC. Este ano, espero que por essa Europa fora muitos votem nos Homens da Luta, e que os portugueses finalmente se indignem com as causas que verdadeiramente merecem o apelo de Stéphane Hessel. O resto são cantigas.
Raul Ribeiro