E, quem quiser ouvir música clássica, que se meta num avião e vá daqui pra fora! Foi este o mote apregoado por um destacado dirigente, quando ainda agatinhava aquela que viria a ser a Madeira nova. Passaram-se três décadas e fica a certeza de que a coisa foi levada a sério. Em concreto criou-se uma barreira, acima da qual, poucos ou muito poucos podem aceder, não vá alguém pôr em causa determinações superiores. Senão, vejamos os cortes sistemáticos que vêm sendo infligidos às instituições culturais mais credenciadas. Veja-se os milhões atrás de milhões, que vêm sendo aplicados no desporto, enquanto os projectos culturais vão sendo adiados e esquecidos. Compare-se os milhões gastos em viagens com o mesmo desporto, quando para os grupos culturais não há um cêntimo para actuar lá fora. Passados 30 anos, não se construiu uma única sala de espectáculos pública no Funchal, nem sequer houve sensibilidade suficiente para preservar salas como o Cine Jardim, Cine Parque e o Cinema João Jardim. Alguns passos dados em frente nos anos noventa, foram completamente atulhados com a queda dos primeiros pingos de dificuldades financeiras, que entretanto, passaram a regime de tempestade permanente e sem fim à vista. Não podemos aceitar o terceiro "ano zero" consecutivo para a cultura. Enquanto agente cultural e amante da terra que me viu nascer, tenho o dever e a obrigação de contribuir, alertando as entidades que nós escolhemos para nos governar, com o nobre objectivo de melhorar a sua legítima função. É urgente repensar as artes. É urgente atribuir meios e ferramentas para que os grupos se internacionalizem e desenvolvam livremente os seus projectos. A senhora Ministra da Cultura já percebeu isto. A Madeira precisa de turistas e o melhor que lhes podemos oferecer é a nossa identidade cultural. Ganhamos o respeito, garantimos a diferença e asseguramos o futuro.

Eurico Martins Director da Orquestra de Bandolins da Madeira