A semana passada veio a Portugal um dos meus formadores de opinião preferidos: Malcolm Gladwell, cronista da prestigiada revista New Yorker e autor de vários sucessos editoriais como "Blink", "The tipping point" e "Outliers" (todos já editados em Portugal). Senhor de uma escrita simples e inteligente tira partido da sua formação de base em estatística para evitar a banalidade de grande parte do jornalismo de opinião que se limita a seguir modas. Não admira que tenha causado impacto na palestra que deu num fórum organizado pelo Expresso onde estavam muitas das principais figuras portuguesas do meio político e empresarial. Afinal para além do penteado extravagante, Gladwell foi considerado em 2005 pela Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

Gladwell escreveu em Outubro passado uma crónica em que questionava o papel das redes sociais como o Twitter e o Facebook nos movimentos ativistas que podem originar revoluções ou grandes agitações com impacto social. O argumento de Gladwell é simples: as grandes mudanças sociais, a começar pela revolução francesa ou pela queda do muro de Berlin, aconteceram muito antes do fenómeno da internet e das redes sociais. As multidões que se organizaram em Berlin ou em França não precisaram do Twitter ou do Facebook para derrubar regimes que esperavam durar centenas de anos. Os fenómenos que estão por detrás destas mudanças são muito mais complexos e começam acima de tudo pelo esgotamento dos regimes que os precederam e as graves consequências sociais que provocaram.

Como Gladwell explica magistralmente no seu artigo as redes sociais não reinventaram o ativismo social, nem vão alterar profundamente a relação entre a autoridade política e a vontade popular. Recusando ceder a sua inteligência a mais uma moda de ocasião, Gladwell explica que estamos a assistir a mais um fenómeno de oportunismo em que os ativistas em vez de se definirem pelas suas causas passaram a definir-se pelas ferramentas que utilizam para divulgar os seus propósitos. E esta tese é facilmente comprovada com a embuste da revolução do Twitter na Moldávia e no Irão, onde existiam na altura apenas alguns utilizadores registados nestas redes. Não foram os Moldavos ou os Iranianos que utilizaram o Twitter (em inglês!) para organizar nenhuma revolução. Foram os jornalistas do ocidente que espalharam o boato pela web sem se preocuparem por confirmar se os fatos eram mesmo verdadeiros. Mais uma vez as maravilhas tecnológicas parecem toldar os sentidos de todos fazendo esquecer centenas de anos de história da comunicação. Parece que vivemos num tempo em que qualquer inovação tecnológica parece ter a capacidade de mudar toda a sociedade - os computadores, os telemóveis, a internet e agora as redes sociais ou os iPads. Mesmo com toda a tecnologias a forma como comunicamos ainda não é mais importante do que o conteúdo, pelo menos quando estão em jogo causa e convicções.

Os movimentos ativistas de cidadãos, sejam contra o aterro da baía do Funchal ou contra os regimes ditatoriais no Egito e na Tunísia, são baseados em laços sociais fortes e só podem ser consequentes se estiverem organizados em torno de uma hierarquia organizada. O Twitter e o Facebook são ferramentas extraordinárias e brutalmente eficientes para nos ligarmos a centenas de pessoas, para lhes seguirmos as recomendações ou para sabermos o que fazem amigos ou ex-colegas. Mas não são fonte de um novo tipo de ativismo, muito menos consequente ou como caracteriza Gladwell de "alto risco". Quem pensa o contrário acha que alguém pode ter centenas de amigos reais como no Facebook, ou que juntar-se ao grupo dos amigos do bacalhau é o mesmo que participar numa manifestação contra Mubarak na praça Tahrir. As redes sociais não são um instrumento para aumentar a motivação das multidões, são sim um instrumento eficaz para aumentar a participação das pessoas através da redução do nível de motivação necessário para participar numa causa. Basta um clique para nos tornar-mos ativistas. Esta é a brilhante e simples ilação comprovada por vários investigadores das redes sociais.

Mas esta conclusão é ainda mais importante para compreender o alcance dos movimentos lançados pelas redes sociais. Em primeiro lugar a eficácia destes movimentos é muito fraca se não estiverem na base estruturas organizadas com uma hierarquia bem definida capaz de fixar objectivos e de tomar decisões estratégicas que não emergem do consenso. Se o objectivo é simplesmente alertar para um problema, desmascarar ou denegrir alguém as redes sociais servem perfeitamente porque permitem que rapidamente um grande número de pessoas participem numa causa. Mas se pelo contrário o objectivo for promover uma mudança sistémica, por exemplo de sistema ou orientação política, então desenganem-se porque uma rede é demasiado vulnerável à desordem interna e à manipulação externa. O que torna as redes incontroláveis e resistentes é precisamente o que as torna também ineficazes na resolução de problemas estruturados.

Sugiro vivamente que leiam o artigo do Gladwell no New Yorker. As verdadeiras mudanças sistémicas têm que ser construídas com trabalho, organização, pensamento e objectivos estratégicos. Os verdadeiros líderes sabem isto muito bem. Nenhuma alternativa credível se constrói no Facebook ou no Twitter por muito que isso pareça apetecível e ao alcance de uns cliques. Como disse Gladwell no fórum em Lisboa: "é preciso construir um movimento sustentável para projetar o futuro, com pessoas com conhecimento, independência e capazes de assumir riscos". Mas não me interpretem mal, não tenho nada contra o ativismo ou as redes sociais. Eu apenas desativei a minha conta no Facebook porque estava a colecionar mais curiosos do que amigos, mais logros do que causas, mais ilusões do que soluções.

Nuno Nunes - Professor Universitário