Claro que a minha posição é delicada. Ligado a uma área tão sensível e alvo privilegiado, tema dominado eruditamente por poucos mas popularmente por todos, autodidactas convencidos da verdade, dificilmente uma decisão do árbitro é compreendida. Bem se esforçam, comentadores e demais intervenientes nas coisas da bola, exibindo um pseudo fair-play, para não chamar hipocrisia, afirmando que arbitrar um jogo é muito difícil, ter de decidir na hora é tarefa complicada e é cómodo e fácil ajuizar de sofá através da televisão. Esta compreensão esbarra logo na 1ª decisão contra a "nossa equipa" mesmo sendo uma falha menor. Começa logo a verborreia dirigida a um ser humano com família, vilmente tratado de incompetente, corrupto, agente do sistema, vendido... Fico, não só, profundamente triste com o ataque à honorabilidade e à dignidade humana como revoltado por ver tais agentes, de moral duvidosa na matéria cheia de telhados de vidro a pregarem teorias "Tomazianas". Conhecem o ditado? "Quem não te conhece que te compre". De todos os intervenientes no jogo os árbitros são os mais discriminados; por um lado até com razão. Como se pode igualar profissionais com amadores? Seria igualar médicos com curandeiros. Como se pode igualar intervenientes de milhões com árbitros de tostões? Seria igualar o ordenado do Presidente do CA da EDP com o ordenado da empregada da limpeza, profissão digna como as demais. Mas a coerência também obriga postura mais exigente com os restantes agentes da bola. Se um jogador falha um golo certo, logo se valoriza a sua capacidade de estar no local; "falhou porque estava lá". Se com uma simulação engana o árbitro, e com essa batota, (grande penalidade) ganha o jogo, é o herói do jogo. No próximo, de suplente passa a titular indiscutível. O árbitro fica de fora na jornada seguinte. Acaba por ser o único castigado da situação. Treinador beneficiado considera a melhor arbitragem. Já o outro... ai,ai. Claro que as instituições funcionam e ainda bem, pois seria antidemocrático, linchamentos públicos e julgamentos populares sem critério de uma plebe ávida de protagonismo saloio, vigente ainda em países de fanatismos ultrapassados que não desejamos. Se defendemos para as democracias modernas posturas, que privilegiam a tolerância e a compreensão também a arbitragem a merece.

PS: A Madeira vai ter de mudar de nome. Ilha do Entroncamento. Depois do fenómeno Coelho eis que foi sugerido outro fenómeno "Transferências de árbitros em Janeiro". Já agora, porque não transferência de comentadores? Também ficaríamos bem servidos.

Francisco Costa - Técnico de arbitragem