Fernando Pessoa, heterónimo de Álvaro de Campos, escreveu um pequeno poema sobre a relação entre a matemática e a arte. Dizer que "o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso" poderá interpretar-se no sentido de que o prazer intelectual no conhecimento científico é semelhante ao prazer estético. Ou, que a aprendizagem do prazer estético pode contribuir para o prazer da aprendizagem do conhecimento das ciências tal como escola proporciona. A audição de uma sonata de Mozart não me fará perceber mais de matemática; também não será com uma visita à exposição Art Déco - Colecção Berardo no Centro das Artes que todos terão positiva no teste de História; assim como assistir a uma peça de Brecht não me garante saber mais de biologia. Mas uma coisa é certa, a prática regular do contacto com as expressões artísticas aumenta a capacidade de aprendizagem, a "sabedoria". Entendida neste contexto como a capacidade de compreender, dar ou perceber sentidos, relacionar realidades, em última instância, reagir perante o novo sem o repelir. E isto está directamente relacionado com a criação de públicos e o acesso à cultura. Estou convencida que ao potenciarmos o contacto com as artes, em particular no ensino secundário, estaremos não só a aumentar a "sabedoria" dos alunos e formandos, como também a fortalecer a sua capacidade de aprender ao longo da vida, estimulando a sua curiosidade, o gosto e a sensibilidade. Acréscimo de espectadores não significa um alargamento do público. Significa antes, de acordo com alguns estudos, que as pessoas que já tinham essa prática a aumentaram. E fico a pensar sobre o que se fala quando se fala de "democratização cultural".
Natércia Xavier - Formadora