
Inicialmente pensei que pertencia à 'geração rasca', ao grupo dos jovens que se abstêm, que protestam contra provas gerais de acesso ou provas globais e que se acorrentam a portas de faculdades porque não querem pagar propinas.
Depois, comecei a achar que afinal pertencia à 'geração à rasca', aqueles que ainda conseguiram um emprego mas que nunca serão ricos, os que terão de trabalhar mais de 40 anos com a incerteza de uma reforma no horizonte.
Mas agora percebo que a geração jovem portuguesa, aqueles que têm até pouco mais de 30 anos, e onde também eu me incluo, é afinal a geração 'parva'. A designação provém da música 'Que Parva Que Eu Sou' dos Deolinda, uma canção ainda não editada em qualquer disco que se tem tornado viral nas últimas semanas, ganhando fãs a cada dia que passa em vídeos no Youtube, em blogues, nas páginas dos jornais ou na televisão.
“Sou da geração sem remuneração /E não me incomoda esta condição / Que parva que eu sou / Porque isto está mal e vai continuar / Já é uma sorte eu poder estagiar / Que parva que eu sou / E fico a pensar / Que mundo tão parvo / Onde para ser escravo é preciso estudar”. A música cantada pela voz já quase inconfundível de Ana Bacalhau fica rapidamente no ouvido e a letra começa a pairar na nossa mente.
“Sou da geração 'casinha dos pais'/ Se já tenho tudo, pra quê querer mais?/ Que parva que eu sou / Filhos, maridos, estou sempre a adiar/ E ainda me falta o carro pagar...” continuam os Deolinda a entoar num vídeo amador capturado num dos concertos dos Coliseus. A qualidade de imagem é má e o som parece por vezes distorcido, mas não é isso que interessa. A mensagem de 'Que Parva Que Eu Sou' é superior a quaisquer imagens 'pixelizadas'.
A verdade é que, inadvertidamente (ou talvez não...), os Deolinda criaram um hino para a geração jovem actual, aqueles que têm de pagar propinas para fazer um curso superior, aqueles que dificilmente encontram um trabalho que não implique o pagamento a recibo verde, aqueles que não conseguem ter o seu próprio espaço porque não ganham o suficiente para pagar uma renda, aqueles que preferem casar depois dos 30 e filhos (se os tiverem) já perto dos 40... A letra é aquela que milhares de jovens portugueses têm sentido na pele, sem que conseguissem porém transformar medos, desejos, rancores em palavras e versos que rimam.
“Sou da geração 'vou queixar-me pra quê?' / 'Há alguém bem pior do que eu na TV' / 'Que parva que eu sou / Sou da geração 'eu já não posso mais!' /Que esta situação dura há tempo demais...” E foi também por isso que a actual geração jovem portuguesa já se apoderou de todas as palavras da música dos Deolinda. Porque o futuro do país depende de nós e deles, dos mais novos, daqueles que começam agora a entrar nessa 'Geração Parva', que não tem nada de tonta e apenas não tem sido imune à parvoíce do mundo em que vivemos.
Mas "Que Parva Que Eu" serei se continuar a acreditar que, mais cedo ou mais tarde, a geração jovem deixará de ser rotulada de 'rasca', 'à rasca' ou 'parva', que será tratada com o devido respeito, que deixará de se lamentar pelo presente, que terá oportunidades para mostrar aquilo que realmente vale. É que já estamos todos fartos de sermos tratados como parvos...